Uma história sob várias visões
Escrever um relato é a fase final de cada etapa de uma corrida de aventura. Escrever após um Ecomotion Pró é quase obrigação. Mas a missão, em geral, é de apenas um integrante de cada equipe.
No entanto, desta vez, a equipe Guaranis resolveu diferenciar e contar a mesma história, mas sob a visão de cada integrante que participou do Ecomotion Pró 2007 – Costa do Sol (RJ).
Togumi, Marco e Fidel contaram um pouco o que passaram durante os sete dias de prova dura, debaixo de chuva e sob muitos desafios. A versão da Camila está no tópico: ‘Eco Pró 07: A versão feminina da história’.
Etapa 1 – Pré Prova
Fidel – Como todos dizem, uma grande corrida começa muito antes da sirene de abertura. Meses de preparação antecedem. As incertezas de completar a prova, as dificuldades de relacionamento entre amigos, parentes e familiares para poder treinar; a disciplina de estar sempre empenhado nos treinos e abdicar de programas mais descontraídos. As dúvidas de estar fazendo os treinos corretos, de estar me alimentando corretamente. Tive uma carga adicional com uma cirurgia no tornozelo esquerdo. Tinha a dúvida de voltar e sentir dores, de não voltar nas mesmas condições de antes da cirurgia, de desapontar os companheiros.
Mas por ser sereno, focado e ter a confiança da equipe, dificilmente sentia dúvidas. Acreditei que juntos superaríamos as dificuldades e tinha em Alã um grande aliado nesta empreitada. Muito mais forte que os demais, sabia que poderia contar com ele em qualquer dificuldade que eu tivesse.
Imprevistos, é disto que é feita uma corrida de aventuras. Grande foi a surpresa e também comoção pelo problema vivido pela família do Alã (por problemas familiares, o Alã não pôde ir ao Eco Pro 07). Realmente não haveria condições de ele correr conosco. E o sentimento que apareceu foi comoção. Ajudar ao próximo, tentar ajudar na dor. Sei que ele ficou profundamente decepcionado. O plano do ano estava indo por água abaixo. Mas como sempre deveríamos enganar a mente, para não nos decepcionar e pensar em outros objetivos. Tentamos ajudar o Alã nisso, focar na recuperação do seu sogro e no bem estar do seu casamento.
Marco – Ligamos para um montão de mulher, e nada. A prova estava chegando e faltando apenas duas semanas para a prova achamos a Mulher… ebaaaa.
A Achada e escolhida foi a Camila. Falamos com ela em um dia e ela ficou de verificar no serviço dela se teria condições de ser liberada para fazer a prova. Então, no dia seguinte, ligamos novamente para saber a resposta. Aí, ela fala: ‘me desculpe, mas não consegui pegar os dias no serviço, então não vai rolar…. ok?’ Ok, então vamos procurar outra menina.
No dia seguinte, estava falando ao telefone com o Fidel e assim do nada recebo uma mensagem no meu celular: ‘Má, por favor, me liga “URGENTE”’. Só tinha o número e não aparecia o nome. Até brinquei com o Fidel: ‘Fidelito, vou desligar o telefone, depois a gente se fala. Eu recebi uma mensagem no celular de alguém pedindo para eu ligar urgente. Quem sabe não é uma super mulher querendo correr com a gente e ainda por cima falando que vai patrocinar a equipe em 101%… hahahahahaha. Vou ligar e depois a gente se fala’.
Quando eu ligo para a minha surpresa era a Camila:
- Oi Má, tudo bem?
- Tudo belezinha, o que manda??
- Então, vcs já arrumaram uma mulher para fazer o Pró?
- Não, já estamos quase desistindo e indo correr apenas os três… rsrsr
- É que se vcs quiserem correr comigo ainda, eu posso ir.
- Ebaaaa, bacana, que legal, então vamos que vamos!!! Equipe fechada!
- Epa, mas espera aí. E o seu serviço, o que rolou????
- Então, sabe como é, pedi AS CONTAS…
- Caracasssssssss!!! Não acredito que vc fez isso, a nossa equipe realmente é muito importante… rsrsrsr.
Togumi – Felizmente, no dia em que havíamos colocado como deadline para encontrar nosso 4o integrante nosso problema foi resolvido com a inclusão da Camila na equipe.
Marco – uma formação que deu certo. Marco, Fidel, Toga e Camila…. Equipe Guaranis.
Etapa 2 – Pré Largada
Fidel – Últimos dias antes da prova, finalizar os preparativos e uma certa insegurança de não termos feito treinos de transição veio. Mas estávamos confiantes e nada podia dar errado. Viajamos confiantes, esperando uma certa apreensão, que não vinha.
Togumi – Nossa viagem para Búzios estava marcada para o dia 17 pela madrugada. Detalhe, no final de semana anterior direcionamos nossa atenção na confecção de um vela para ser utilizada nas etapas de canoagem.
Detalhe 2: na 2a feira, véspera da largada, a organização do evento soltou um e-mail informando da necessidade de uma polia por competidor. Loucura, afinal estávamos organizando tudo para viajar na 3a feira e agora mais um problema para resolver. Como o Fidel estava de férias do trabalho, ele ficou responsável em descascar mais esse abacaxi.
Dia 16-combinamos que todos iriam dormir no quartel general da equipe Guaranis (Casa da Lilian e do Marcão). Cheguei por vota das 20h30 para poder organizar os carros. Dormir e sair bem cedo por volta das 5 horas da manhã. Só conseguimos terminar os carros por volta das 2h30 do dia 17. As duas pick ups estavam lotadas de equipamentos, alimentos e roupas para a prova.
Dia 17 – acordamos por volta das 4h30, tomamos um breve café e seguimos viagem rumo a Búzios. A viagem foi tranqüila. Tranqüila até demais para a Camila, que após a primeira parada só acordou para almoçar e descer do carro em Búzios. Tá louco!!!
Fidel – Já em Búzios, o clima da prova pairando no ar, várias outras equipes finalizando os preparativos e a confiança ainda estava alta. Um clima bom e descontraído dentro da casa nos fazia esquecer das preocupações que uma corrida destas pode trazer.
Togumi – Dia 18 – a parte da manhã foi direcionada para os ajustes necessários na vela, desenvolvida nada mais nada menos por Alexandre Hercowicht (é assim que se escreve???), pois para apenas costurar o tecido investimos R$ 80,00.
Na parte da tarde finalizamos a parte burocrática da competição com o check list dos equipamentos e preenchimento dos documentos que faltavam.
Dia 19 – No período da manhã realizamos os testes das velas nos caiaques alugados na praia Ferradurinha que, segundo os locais, foi eleita a praia mais bonita de Búzios. Realmente muuuito bonita.
Dia 20 – Dia do almoço de confraternização na Praia Brava. Não haveria lugar melhor para esse evento, uma vista ESPETACULAR. Todos os participantes estavam aproveitando o momento para descontrair, fazer novas amizades e reencontrar os amigos e colegas de outros carnavais. Para a nossa surpresa, quase no final do evento a capitã da equipe BUFF, Ema Rocca, veio até nós, perguntando se gostaríamos de trocar nossas camisetas com as deles, porém isso deveria ser feito no final da prova, pois tanto eles como nós não tínhamos mais camisetas para trocar pois a usaríamos durante a prova.
Concordamos em realizar a troca na festa de premiação com as camisetas ainda sujas…urhg!!!
À noite tínhamos a festa de abertura do Ecomotion Pro 2007 com a apresentação das equipes e todo o show pirotécnico planejado pela organização, que funcionou em partes.
Fidel – A festa da apresentação das equipes nos motiva, mas, ao mesmo tempo, nos alarda. Várias equipes boas estão lá. A expectativa de um lugar entre os 10 primeiros fica um pouco mais distante, mas mais real.
Togumi – Recebemos os mapas e fomos para a casa estudá-los e prepará-los para a largada no dia seguinte, que seria dada na cidade do Rio de Janeiro na praia da Urca ao pé do Pão de Açúcar.
Fidel – Últimos preparativos do mapa, noite mal dormida, briefing, viagem para o Rio e o nível de apreensão aumenta. Mas estou relaxado, sentindo o clima e a adrenalina dos outros participantes aumentarem.
Togumi – Dia 21 – Pela manhã, participamos dos briefing técnico e resolvemos um problema de última hora, que era definir como iríamos viajar para o Rio de Janeiro, pois nosso carro de apoio estava super lotado, conseqüentemente, impossível de viajarmos com ele. Nos unimos com as equipes Uirapuru, Goibada Power e Selva e alugamos uma Van para realizar nosso traslado para a cidade maravilhosa (MARAVILHOSA???).
A Largada
Togumi – A largada estava marcada para às 21h, na praia da Urca. Chegamos lá por volta das 17h30 e percebemos que não havia nenhuma estrutura montada por lá. Foi quando notamos algumas discussões entre o staff do evento e algumas pessoas que transitavam ao redor da pequena praia. Descobrimos que uma Associação dos moradores da Urca não queria permitir que o evento fosse realizado na praia. Autorizações foram solicitadas, a polícia tentou intervir, enfim estava instalada uma grande confusão e nós competidores não sabíamos o que iria acontecer ou se iria acontecer.
Mais tarde, fomos orientados a nos deslocar para uma base militar próximo à praia da Urca e que a largada seria realizada nesse local às 23 horas.
Fidel – Uma alimentação correta antes da prova fizeram aumentar a ansiedade.
Marco – Tudo pronto para a largada, a Lílian e o Anderson já tinham arrumado as nossas cadeirinhas em nossos caiaques e só estávamos aguardando a organização liberar a entrada dos atletas na areia da praia. Liberados, equipes/atletas estavam prontos ao lado de seu caiaque.
Demos tchau à Lílian e ao Anderson e ficamos preparados. Eu com o coração na mão e a ansiedade misturada com saudade da minha esposa, que pela primeira vez estava no apoio. Sempre corremos juntos e desta vez ela estava apoiando. E como apoiou.
Fidel – Balões gigantescos iluminando um pedaço de praia, todas as equipes juntas, prontas para a largada e o nível de ansiedade aumentando. Sou sereno, mas senti um aumento de adrenalina naquela hora. Todos preparados.
Chegam os helicópteros e é dada a largada. Várias emoções passam neste instante, confiança e um pouco de nervosismo.
O remo na Baía de Guanabara
Marco – A buzina toca e é dada a largada. Eu não sabia se remava ou se ficava somente fazendo um tipo de proteção do caiaque, pois eram muitos caiaques e parecia que todos estavam vindo para a nossa direção. Com isso, era um tal de bate-bate. Tinha hora que parecia que o caiaque ia virar, principalmente quando o helicóptero ficava voando baixo, perto dos caiaques. O nosso caiaque enchia de água e eu só falava para o Fidel: ‘segura e não vira o corpo, senão vamos virarrrrr’. A bagunça foi por +/- uns 5 minutos, até que tudo ficou sossegado, bem, quero dizer, sossegado de bate-bate dos caiaques, porque o mar estava totalmente mexido. Fomos remando em direção à ponte Rio/Niterói e passamos por baixo dela. Comentei com o Fidel que jamais poderia imaginar que um dia eu ia passar remando debaixo dessa ponte, mas passamos….. e vamos seguindo e remando.
Togumi – Seriam 50km de canoagem e 45km de moutain bike até o próximo encontro com os nossos companheiros de apoio. A canoagem foi muuuiitto dura, pois havia muitas marolas, que dificultavam o trabalho dos competidores responsáveis em realizar o leme e tentar manter o caiaque em linha reta.
Marco – Chegamos no final da baía e tínhamos que pegar um braço de rio. Estávamos na dúvida na navegação, então eu e o Fidel paramos de remar para verificar o mapa. Chegamos à uma conclusão. ‘Bacana, então vamos remar em direção ao canal que temos que ir…. opssss! Fidel, eu acho que não tem água, secou tudo…’ A maré tinha baixado, então ficamos parados, tentando imaginar o que tinha acontecido, até que chegamos à conclusão que seria necessário sair do barco para empurrar. Nessa hora, a Camila e o Toga tinham se separado de nós. A gente escutava eles gritando o nosso nome, mas eles não escutavam a gente. Resolvemos empurrar para a esquerda, pois lá ainda tinha água.
Togumi – Em meio à penumbra da madrugada, percebemos que algumas equipes estavam empurrando seus caiaques e resolvemos fazer o mesmo. Tiramos nossos tênis, enfiamos o pé naquele mangue e empurramos nosso caiaque por muito tempo até encontra um fio d´agua que nos possibilitava remar novamente. Foi nesse momento que percebemos que haviam muitas equipes, algumas paradas, outras remando à deriva e outras ainda tentando se desvencilhar do mangue. Dentre elas, estavam as favoritas a vencer a competição. Encontramos com a equipe Selva e perguntei ao Caco se não era naquele ponto que deveria estar o PC1 e ele respondeu que sim, mas para parecia que o responsável não estava lá. Aproveitei e perguntei se havia visto o Marcão e o Fidel. O Marcinho disse que não os tinha visto graças a Deus, pois senão teriam que pagar Flexões de Braços.
Marco – Estamos eu e o Fidel empurrando de joelho e quando quase estamos chegando quem aparece? A Camila e o Toga….. ‘Ei, aonde vcs estavam?’ Ai eu respondo: ‘lugar nenhum, estávamos aqui mesmo atolados… e vcs???’. Eles respondem: ‘Também estávamos atolados do outro lado’. Eu disse: então esperem aí, que já estamos chegando’. Empurramos até eles e começamos a remar em direção ao canal que tínhamos de subir.
Fidel – Remamos no meio à multidão. Várias equipes já estavam bem na frente. Veio um sentimento de não ser os últimos, mas aos poucos fomos ultrapassando mais e mais equipes.
Apesar do PC1 não estar no local correto e isso gerar dúvidas do caminho correto, seguimos adiante. Veio um sentimento de boa competitividade, pois remamos junto de equipes como a Buff e ultrapassamos as meninas da Athena. Isso com certeza fez aumentar a nossa confiança.
Marco – Aconteceu uma cena muito engraçada. Paramos e ficamos só observando. Passa uma fila enorme de equipe, uma atrás da outra. Várias equipes gringas, entre elas a Buff. Olho para o Fidel e para o Toga e falo: ‘aquela equipe alí não é a Buff? O que será que está rolando? Onde eles estão indo, se o caminho é para cima, porque estão voltando?’ Ficamos parados só vendo a cena e novamente, do nada, elas começam a voltar. Ficamos só observando e eu digo: ‘E aí, o que vamos fazer????’ O Toga mais do que depressa já foi falando e indo: ‘vamos junto’. Eu digo: ‘Então vamu embora. Fidel, olha o mapa e vai verificando as referências. Se for isso mesmo, vamos que vamos, se não for então é melhor voltar’. Como o Fidel fez toda a lição de casa e verificou todas as referências, então estávamos certos. ‘Vamos que vamos… uhuuuuuuuuuu!!!’. Saímos da água em +/- 20º, mas com +/- 6 equipe paradas e ao mesmo tempo.
Togumi – Enfim chegamos ao PC2 na 25o colocação. Não fizemos uma transição rápida (coisa que se repetiria durante toda a competição). Pegamos nossa bikes e partimos rumo ao PC3 e PC4(AT1). O início do trecho de bike era tranqüilo, com poucas subidas, mas em compensação depois do PC3, dá-lhe subida até Teresópolis.
Fidel – No PC2 demorei um pouco mais, pois lavei os pés do barro e coloquei meias secas. A demora trouxe um inconveniente. Senti pressão da equipe para sair rápido. Acabei não me alimentando adequadamente no PC2 e por não comer direito veio uma pequena discussão, mas consegui me alimentar corretamente quando o pneu do Toga furou.
A bike é minha pior modalidade e tínhamos planejado fazer vácuo para descansar melhor o grupo. Mas mesmo planejando, não conseguíamos fazer. Praticamente ia cada um no seu ritmo, ou no máximo em duplas. Veio o push bike, estávamos com outras equipes, não me alimentei direito e veio o sono. Queria descansar de qualquer jeito, mas era dia e não podíamos dormir. Comecei a me alimentar corretamente, mas senti fraqueza e sono. O Marco me ajudou nesta hora e minutos depois já estava melhor.
Marco – Pedalamos sem dificuldade em direção a mais um PC. O Toga cabeção não usou meia e pedalou com a sapatilha cheia de areia e sem meia. O problema não foi pedalar, pois se fosse somente pedalar não teria problema, mas do PC3 para o PC4/AT2 foi um enorme push bike que não acabava mais. Saímos de quase 0 para 1100 metros de altitude. Já dá para imaginar o que aconteceu com o pé do japonês: ficou parecendo queimadura de 3º grau. O negócio estava feio, a prova nem mesmo tinha começado e a 1º perna de trekking estava para começar. Imagina como foi o sofrimento desse japs, sem necessidade? Uma coisa que eu aprendi com o Toga foi que, sempre que tiver alguma coisa te incomodando, pára e resolve na hora. Se tiver com calor tira a blusa, se tiver com espinhos na calça, pára e tira a calça ou os espinhos. Se tiver com os pés machucando, pára e trata ali mesmo, na hora. Então passei a fazer isso e não deixar mais nada me incomodar e ter sempre uma corrida tranqüila. Agora não consigo entender o porquê ele não fez o mesmo, já que foi ele quem me ensinou essa técnica japonesa que ele aprendeu na Alemanha. Porque será????? Deve ser adrenalina do início de prova.
PC 4 / AT1 – A primeira transição com apoio e um looonnnnngggooo trekking
Fidel – Veio o PC 4 e o carinho dos nossos apoios. Fiquei feliz de vê-los e vi que estávamos numa boa posição ainda junto com as equipes de ponta.
Togumi – Ao chegar o PC4, quando tirei minha sapatilha, notei que haviam 2 bolhas grandes, uma em cada pé. Pedi auxilio à equipe médica da prova que me atendeu de forma exemplar. Comemos, trocamos de roupa, organizamos nossas mochilas (exceto o Fidel) e fomos descansar por 40 minutos. Ao acordar, o Fidel organizou sua mochila e partimos de trekking rumo à Petrópolis por volta das 18 horas.
Fidel – Uma boa dormida e fomos para a subida. Animados, mesmo com a chuva, fomos embora. Marco e Camila iam num ritmo mais forte e eu tinha que ajudar o Togumi que estava com bolhas. É ruim ficar por último, tendo o sentimento de estar atrapalhando o resto da equipe. Tinha que ajudar o Togumi.
Marco – Bem, com os pés inteiro ou não a gente tinha que continuar com o nosso objetivo e a dura missão de vencer o Parque dos Órgãos, fazendo a travessia Petrópolis X Teresópolis. Deixamos as nossas bikes e o calor de nossos apoios espetaculares e partimos rumo à pedra do sino. O nosso próximo objetivo era chegar até o abrigo 4. Então, vamos que vamos, sebos nas canelas. Achei que não tinha mais nada para subir. Também, depois de tudo que subimos na bike… Mas era só ilusão. Sabia que tinha uma dura subida pela frente: ‘Vamos seus moles!’
Togumi – Por volta das 22 horas, resolvemos parar para descansar e nos alimentar num lugar um pouco mais abrigado. Foi nesse momento que minha headlamp resolveu parar de funcionar e a partir dai caminhei atrás do Fidel para utilizar a luz da headlamp dele.
Marco – ‘Vamos subir… subir… subir.. subir e subir mais um pouquito’. E assim fomos com muita chuva e sono… ‘Ops… o que é aquilo ali??? É o brigo 4. Bacana, então vamos parar e descansar por 3 horas…’ Toc… toc.. toc… Batemos na porta e um rapaz que cuida do abrigo veio abrir. ‘NOSSA, quanta gente aí dentro, será que cabem mais 4 malucos?’ Ele disse que sim e que para ficar no abrigo estava cobrando uma taxa de R$ 30,00, que é lógico que pagamos fácil. Entramos e procuramos um canto para dormir, trocamos nossas roupas molhadas por roupas secas. A Camila e o Fidelito ficaram na cozinha, junto com uma outra equipe, já o Toga foi para debaixo da escada e eu fiquei de frente para escada. O ruim foi que eu e o Toga ficamos bem perto da porta, então eu acordava do nada tremendo de friooooo, e olha que estava com a roupa totalmente secas.
Togumi – Quem se encontrava no Refúgio era a jornalista Renata Falzoni, que comentava com o organizador do refúgio que aquilo havia se transformado num KOSOVO. Havíamos programado para dormir 3 horas, porém não escutamos nossos relógios e dormimos uma hora a mais. Saímos de lá por volta das 6h da manhã, já com luz natural, o que nos facilitou na navegação que não era tão simples assim.
Fidel – Vários abismos, mas estávamos confiantes. As neblinas subiam constantemente, o que dificultava tudo, mas acertamos o caminho e, apesar de outras equipes passarem a gente neste meio termo (o que sempre abaixa um pouco a moral da equipe), passamos outras equipes.
Marco – o nosso caminho que por hora era trilha e por hora era só pedra, não tinha nada, somente rochas para todos os lados. Então, começamos a subir pelas pedras. Tínhamos que ir para o cume e andar sobre ele, como uma escalada, que por sinal achei muito perigosa. Uma hora, eu estava subindo uma pedra e depois de uns 15 minutos tentando subir, quase chegando no topo, eu simplesmente escorreguei e desci tudo em apenas 5 segundos. Com muito medo de desabar para baixo, procuramos um local um pouco mais seguro. Chegamos em um dos cumes e no caminho tinham escadas, cordas e até algumas ferragens fixadas nas rochas. ‘Ops, pelo menos estamos no caminho certo. Vamos para o próximo cume’. Foi aí que realmente o medo pegou. Para falar a verdade, não passava nem mesmo uma agulha! Subimos por uma rocha que dava medo. Na hora, achamos que seria o melhor local para subir. Então, lá vou eu, todo valente e poderoso na frente, subindo e no meio do caminho eu grito para a galera: ‘Pessoal, volta! Não vem por aqui, não, porque o bicho tá feio e está super perigoso. Tem um caminho logo abaixo, que está bem melhor e não precisa escalar. Voltem e vão por lá. Aí, na minha cola, como sempre estava a Camila, que gritava para mim: ‘Vai logo seu mole. Sobe de uma vez, que eu estou na sua cola’. Aí, eu falava para ela: ‘Não vem, não. Volta, porque aqui não vai rolar. Está perigoso e escorregando muito’. Consegui passar, mas com muito medo. Aí, a Dona Camila, que é teimosa como uma mula, me grita no meio da rocha: ‘MÁ, POR FAVOR, VC PODE ME AJUDAR A SAIR DAQUI?!?’ Eu, calmamente, respondo: ‘Não Senhora, não vou te ajudar, não. Falei que era para vc voltar, pois estava perigoso’. Ela gritava e ficava xingando: ‘Mas Má, vem aqui por cima e me dá o bastão que tento sair’. Eu respondia: ‘já falei que não, olha só o tamanho do perigo. Quando eu estava aí, não passava nem mesmo um alfinete. Tô fora! Pode voltar’. Ela disse: ‘Então me ajuda a voltar. Vai me falando o que eu devo fazer…’ Ajudamos ela e a teimosa voltou e foi pelo mesmo caminho que o Toga e o Fidel. Depois, ela me vira e fala: ‘É, realmente ali estava perigoso, ainda bem que eu voltei. Não tinha mesmo como vc me ajudar…’ Ainda bem que, pelo menos, ela reconheceu que o lugar era realmente perigoso….. rsrsrsrs
Depois disso tudo tivemos que descer um montão, para subir um outro montão para chegar a um outro cume e recomeçar a descer um outro montão em direção ao próximo AT.
Petrópolis – Segunda transição com apoios e mais bike
Togumi – Depois de muito sobe e desce chegamos à Petrópolis.
Fidel – Chegamos felizes no próximo PC, gosto de ver o sorriso da Lilian quando estamos chegando num PC. A encontramos no meio do caminho, quase já chegando ao PC. Gostei de a ouvir ela comentar com outros apoios que tinha saído para trazer-nos de volta ao PC.
Marco – Nossa, como era bom ver os nossos apoios! Que maravilha! Para mim, era melhor ainda, porque a minha esposa estava no apoio. Ela e o Anderson sempre com toda alegria do mundo: ‘Vamos lá galera, vcs estão super bem!’ A alegria deles era sempre ótima e a gente realmente ficava com muito mais energia. Eita apoio porreta! Rsrsrsr
Togumi – Ao chegar nesse AT, mais uma vez, passei pelo posto médico para cuidar das bolhas. E o fato engraçado foi que, enquanto eu fazia minha transição, passou um ônibus pela avenida e ouvi a seguinte frase: “Olha mãe, um japonês!!!” . É claro que todos se divertiram com a mais nova atração da cidade.
Fidel – Mais uma bike, sentia começo de caimbrã, mas fomos num ritmo bom até o ponto de passagem obrigatória. Um refrigerante rápido e mais trilha. Veio o sono, o sentimento de não estar sóbrio, a dúvida do caminho e mais sono. Pedi para parar onde não havíamos planejado. Senti que o Marco queria continuar, mas o Toga me apoiou e fui dormir. Acordei, não me alimentei corretamente e sofri para chegar ao próximo PC. Queria dormir, recuperar as forças.
Marco – Continuamos na dura batalha de agüentar a chuva que não parava de cair. Pedalamos até um PC Virtual, onde tínhamos que anotar o nome da escola. Ali mesmo, no pequeno quintal de uma casa, paramos para o Fidel dormir um pouco, pois o bichinho já não estava mais falando nada com nada e nem mesmo mais sabia o nome de ninguém. Paramos por 40 minutos. O Toga e o Fidel dormiram e eu e a Camila ficamos comendo e dando algumas risadas.
Como estávamos no quintal de uma casa, dava para ouvir a televisão ligada. De repente, do nada, alguns gritos começam a sair de dentro da casa: ‘P…, DÁ PARA FAZER SILÊNCIO? CALA A BOCA, QUE EU QUERO ASSISTIR TELEVIÇÃO’. Ops!!! Eu e a Camila ficamos desesperados: ‘Psiuuuuu, fala baixo e come sem fazer barulho, porque a mulher está brava. Acho que vamos ser expulsos, então é melhor a gente fazer silêncio’, falei para a Camila. Estávamos ali bem quietos e depois de um tempo aparece uma equipe – acho que era da Argentina ou da Colômbia. Os caras começam a gritar: ‘Onde é a escola?’, perguntam. E eu falando bem baixinho: ‘é essa aí na frente. O nome está na lateral’. Eu todo preocupado, já achando que a mulher fosse sair com um facão e nós fôssemos ter que sair correndo, ou melhor, pedalando forte e gritando: ‘CADA UM POR SI!!! rsrsrrsr. Ufa’! Eles logo foram embora e quando estou quase pegando no sono, a Equipe Ratos de Trilhas aparece gritando também. Logo pensei: ‘F… de vez!’ Na seqüência, uma gritaria dentro da casa, com a mulher gritando e um monte de crianças também. Pensei: ‘o bicho vai pegar! Vão sair todos com faca, machado, enxada e tudo mais’. Só aí percebi que a mulher não estava gritando com a gente e sim com as crianças, que não paravam de fazer bagunças e ela louca para assistir televisão… Ufa, que alivio! Mesmo assim acordamos o Fidel e fomos embora, em busca do próximo AT.
E mais trekking
Marco – Deixamos as nossas bikes e pegamos novamente os nossos bastões de caminhada. ‘Ops, mas espera aí, temos que levar também o nosso kit de vertical, pois nessa etapa de trekking teríamos que fazer toda a parte de cordas da prova’. Aí, nossos apoios informaram que não íamos mais precisar dos verticais, pois havia sido cancelado. O SR. SAID NÃO TINHA AUTORIZAÇÃO PARA FAZER ISSO DENTRO DO PARQUE. Então, os caras do parque apareceram lá e falaram: ‘Ou tira tudo ou vão presos’. Acharam melhor tirar tudo. Mas esse Said, sempre Said…
Fidel – O próximo trecho foi bem sereno para mim. Paisagem bonita, que acalma a mente. Tivemos uma boa sintonia neste trecho. Chegamos ao PC10 felizes e mais felizes com o sorriso da Lilian. Comemos, esperamos o Toga cuidar dos pés e saímos.
Era meio dia, mas estávamos alucinando debaixo da chuva. Veio o mato fechado, descida em pedras, parecia uma costeira. Vimos que o Toga tinha dificuldades. O Marco e eu brincamos nesta descida, como crianças. Foram momentos divertidos. Chegamos ao PC virtual 11.
Marco – O Toga estava com o pé totalmente desconfigurado de tanta bolha que tinha. Era uma baita subida e para piorar a descida era muito pior, muito íngreme, com várias pedras e muito escorregadia. Tudo isso com muita chuva. A Camila fala: ‘ahhh, eu já fiz essa trilha aqui. Eu me lembro de cada pedra que está nesse chão e o mais bacana de tudo é que dá para ver a Baía de Guanabara. É lindo!’ Eu e o Fidel começamos a zoar com ela: ‘fala a verdade, vc acha mesmo que dá para se ver alguma coisa daqui? Eu acho que não faz Sol nunca nesta terra ou pelo menos nesse pedaço aqui’. Aí, ela vira e fala: ‘vcs sabem que dessa outra vez que fiz essa trilha aqui, o tempo também estava do mesmo jeito?!?’ Um silêncio e eu digo: ‘Aiiii, mas que menina mais contadora de histórias. Se o tempo estava assim, como foi que viu a tal da Baía, hein????’ Mais rápida do que eu esperava, ela responde: ‘É que tinha uma pequena abertura e deu para ver por esta abertura’. kkkkkkkkk.
Continuamos a descer, quando chegou uma hora que parecia um paredão. Uma longa descida, com muito barro e deslizando muuuiiitttoo. Aí então, começou a competição. Competição de quem conseguia descer sem usar as mãos. E lá fui eu primeiro, analisei o território e já fui me jogando barranco abaixo, fui pela esquerda e logo esbarrei em uma árvore. O Fidel lá de cima gritava: ‘não vale por a mão’. Desci todo o barranco sem cair e nem mesmo utilizar as mãos… uhuuuuuuuuu, ‘Que venha o próximo’. Aí, o Fidel como sempre atrapalhado, resolveu ir pela direita. Quando viu que não tinha mais como continuar, passou para a esquerda e tibuuuummm, o maior tombo. O cara rolou para a esquerda, para a direita, frente e até mesmo para trás. Ficou com lama por toda a parte do corpo…. kkkkkk Eu e a Camila não parávamos de dar risadas… kkkkkkkk Foi muito engraçado.
Ficamos esperando o Toga, já que ele estava vindo devagar por causa de suas amigas, as bolhas. Fiquei com a máquina na mão para filmar um mega tombo, mas nada feito. O Jáp’s estava de mal com a vida, quando ele viu a descida logo colocou a bunda no chão e foi de ski bunda mesmo. Valeu pegar a cara dele nesta filmagem. O Japs estava muito sério e eu não parava de dar risadas… kkkkkk
Togumi – Nesse trecho, acho que consegui desenvolver a espetacular velocidade de 0,5 km/h em razão das bolhas. No final da descida, eu já estava de saco cheio, puto da vida, qdo me deparei com um trecho muito escorregadio. No final dela estavam meus companheiros, me aguardando e o Marco com a câmera fotográfica na mão, dando muita risada. Não pensei duas vezes, sentei no chão e escorreguei. Tudo ficou documentado no vídeo gravado pelo Marcão.
Continuamos o trekking, agora (graças da Deus) em terreno plano quando a chuva apareceu mais uma vez. Coloquei meu anorak e, sem falar com ninguém, continuei andando, mancando, andando, mancando…sei lá o que era aquilo. Minutos depois percebi que meus companheiros de aventura estavam se divertindo às minhas custas dizendo: “Olha esse cara, mochila torta por causa do ombro dolorido, sujo de lama pelo corpo e mancando, parece que foi para a guerra”. Em seguida, a Camila solta uma das pérolas: “Togumi, toma cuidado, porque se você levantar a mão, Deus te puxa !!! Cara, vc tá zuado!!!” E todos nós caímos na gargalhada.
Fidel – Vimos uma equipe desistente, cuidamos dos pés. E os Uirapurus chegaram. Com certeza o nosso ânimo abaixou um pouco, mas sabíamos das nossas limitações e ficamos conformados. Sabíamos da insegurança da navegação dos Uirapurus e apostávamos em alguns erros deles. Procuramos não nos juntar. Veio uma navegação difícil, com mais alucinações, algumas perdidas, mas aos poucos nos distanciamos deles. Veio o sono da nossa equipe, dormimos 20 minutos. Queria ir mais rápido, mas não podíamos. Novamente os Uirapurus chegaram. Fica aquele clima de insegurança da parte deles que querem discutir a navegação. Tenho confiança da minha navegação e quero seguir em diante. Felizmente nos separamos novamente e felizmente chegamos ao PC12. Dormimos e seguimos na frente dos Uirapurus.
Vale aqui a história do desaparecimento/abdução do Togumi. Como eu estava navegando e o mapa da cidade em que chegamos não estava nada fidedigno, o Marco e eu éramos os que estavam em melhores condições, resolvi explorar a cidade para o norte, para cima de uma rua e pedi para o Marco ir para baixo, onde o objetivo seria ver onde poderíamos atravessar uma rodovia de asfalto. O Toga neste meio tempo resolve subir um pouco pela rua. Eu o ultrapasso e peço para ele me esperar para verificar se realmente o caminho correto é para cima. Subi rapidamente até o final da rua, entrando em vários lugares e como não havia passagem o caminho correto seria para baixo. Fui descendo novamente a rua, procurando onde o Toga poderia haver parado para descansar e não o encontrei. Encontrei a Camila sentadinha num cantinho e pedi para ela descer e se encontrar com o Marco. Encontrei o Marco e ele falou que iria descer devagarzinho enquanto eu procurava o Toga.
Subi novamente a ladeira agora gritando pelo nome do Toga e nenhuma resposta. Cheguei até o final da rua, já não existia mais nenhuma casa. Corri uns 5 minutos ladeira acima ainda gritando o nome do Toga no meio da escuridão e não obtive nenhuma resposta. Pensei: ‘ele foi abduzido. Sumiu no meio da noite!!!’
Comecei a descer novamente gritando pelo nome do Toga. Neste momento os vizinhos já deviam estar todos acordados. Desta vez, pelo menos tive mais sorte. Encontrei o indivíduo deitado em baixo de uma pequena cobertura e ele acordou quando gritei o seu nome.
Meio cambaleante, me acompanhou ladeira abaixo onde seguimos depois todos juntos até o PC12 dos cavalos. Nos informaram que teríamos que cumprir uma parada obrigatória e que os cavalos seria da Pegout Escapade até o PC13 (virtual), onde depois iríamos 4 km à pé até o PC14 onde nossos apoios estavam aguardando.
Marco – A chuva e o caminho com muita lama estavam judiando muito dos bichinhos. Os bichinhos que eles estavam falando eram os cavalos e não a gente. Rsrsrsr.
Novamente os apoios, ajuda dos locais e injeção de ânimo
Marco – Chegamos no próximo AT, onde nossos apoios estavam instalados ao lado de uma casa de uma senhora, que deixou montar toda a nossa bagunça. Era cêdo e a gente fazendo um baita barulho. Nossos apoios já estavam muito cansados e com cara de esgotamento. É lógico, quem é que agüenta ficar vários dias embaixo de chuva, montar tudo, recolher tudo, desmontar tudo, limpar bikes, lavar roupas, secar roupas? Realmente, os apoios são guerreiros e são 70% responsável pela nossa conquista.
Deixamos novamente os nossos bastões de caminhada e pegamos a bike. Essa bike foi pancada, porque era muita subida e as descidas eram difíceis, pois era barro para todos os lados e as nossas bikes já estavam apresentando pequenos problemas. Pequenos porque os nossos anjos de apoio sempre davam um belo trato.
Seguimos pedalando e cantando morro acima e morro abaixo. Nessa hora, passa um cara com uma moto e eu grito da bike: ‘Por favor, é por aqui que vai para Rio Bonito?’ O cara da moto levou um baita tombo naquela lama. Ele levantou xingando: ‘que mer…, $%#%& dessa moto’. Eu, todo sem graça, comecei a pedir desculpas para ele, mas o problema era com a moto. Ele falou que toda vez esquecia que a moto estava sem freios e quando precisava parar era um tombo… kkkkkkkk Queria dar risadas, mas eu acho que não rolava……. ele confirmou e seguimos até o AT.
Quando chegamos, os nossos apoios estavam com uma cara bem melhor. Estavam com o acampamento montado junto com o apoio da Uirapuru e o nosso amigão Robinson estava por lá. Isso foi muito bom para os apoios, pois foi uma injeção de ânimo.
O Fidel resolveu dormir 30 minutos, o bichinho estava esgotado e de mal com a bike, pois havia sido um trecho muito pesado pela lama e pelas subidas.
Fidel – Sabia que com o humor que eu estava podia ter alguma briga com qualquer um, sem nenhum motivo. Pedi para dormir 20 minutos e acabei ficando 40 minutos. Acordei e o mau humor foi embora, mas senti que o Marco acabou não gostando da minha idéia de sono. Não quis esclarecer os meus motivos na época.
A fuga do último corte
Marco – Recuperados e prontos, partimos para outro trekking, com a missão de fugir do último corte da prova. Tínhamos que chegar no outro dia até às 8h da manhã, no AT seguinte. Eram +/- 38km de um trekking com muitas subidas. Subimos, subimos e subimos e quando chegamos no topo do morro, olhei para os lados e logo gritei: ‘CARAMBA, QUE VIZUAL LINDO!’ Estava de noite, mas as luzes das cidades lá embaixo eram de arrepiar. Depois fiquei sabendo que era a ponte Rio Niterói.
Quando começamos a descer, parei para navegar, o Fidel estava um pouco mais abaixo e o Toga ao meu lado. ‘Ops, cadê a Camila?’ Ela estava dentro de um buraco com a lanterna apagada e dormindo. Tive a idéia de sacanear a Camila e falei: ‘Vamos apagar as headlamps e nos escondermos dela’. Começamos a gritar: ‘CAMILA!!! CAMILA!!!’ E ela do outro lado: ‘Ei meu, cadê vcs? Aparecem vai! Parem de brincadeira!!!’ Eu não me agüentava, não parava de dar risadas… kkkkkkkk.
Realmente uma trilha muito linda, conhecida como a trilha do Sana, em São Pedro das Serras, realmente de tirar o chapéu.
Fidel – Veio um outro trecho complicado de navegação. Achar a trilha correta. O Marco novamente foi perfeito. Chegamos ao topo e começamos a descida. Começou o sono da equipe e vimos uma equipe chegar a nós. Tememos ser os Uirapurus. Tentamos em vão achar o caminho correto.
Senti o sono do Marco e da Camila. Eles estavam um pouco desestimulados. Fiquei com raiva deles quererem desistir, faltando tanto tempo para chegarmos ao PC. Toga foi junto com a outra equipe (tia Sonia) e encontrou o caminho correto. Fomos seguindo o caminho correto, mas o desânimo ainda tomava conta da nossa equipe. Tentava animar, mas sem sucesso. Achamos uma porteira do outro lado do rio e os caminhos corretos se abriam à nossa frente.
Togumi – Consegui identificar o caminho, disse que faltavam 8km até o próximo PC e que tínhamos 2 horas para completar essa distância. Conseguimos nos reanimar e seguimos motivados para tentar chegar antes do horário de corte.
Como o Fidel era o que estava em melhores condições, peguei os 2 chips e passei a ele e disse para ir na frente para o PC e que se virasse para tentar passar o chip com a organização. A Camila me passou e foi em direção ao PC enquanto eu aguardava o Marcão, que estava sentido fortes dores no pé.
Ao chegar numa bifurcação, parei para aguardá-lo, apoiei minha cabeça no trekking pole e acabei dormindo (em pé). Qdo acordei, não sabia se o Marcão havia passado por mim ou não e fiquei na dúvida, olhando para todos os lados sem saber o que fazer. De repente o Marco surge na estrada e pude respirar aliviado por ele não ter me passado.
Fidel – Eram 5h30 da manhã e ainda íamos devagar. Tínhamos 2 horas e meia para andar pouco mais do que 8km. O Toga tentou animar a equipe correndo, mesmo mancando. Senti que havia chegado a minha hora de herói, pensei na promessa do Anderson. Essa promessa me motivou. Peguei os chips e saí em disparada. Vejo ao passo que estávamos iríamos chegar em cima da hora ou não conseguiríamos chegar ao PC antes do corte final. Bolo junto com um integrante da equipe da tia Sônia uma estratégia de passar o chip sem o resto da equipe. Tentamos chegar com antecedência para não levantar suspeitas de chegarmos somente pelo corte, mas o integrante da tia Sônia não conseguia correr muito. Tinha que esperar por ele. E isso aumentava a minha apreensão e a dúvida de conseguir ou não clipar o chip mesmo sozinho.
Chegando ao PC e vendo o sorriso da Lilian, vi que teria que dar uma de ator. Ela entendeu rapidamente o que acontecia e murchou. Passei o chip e fiquei feliz, já não seríamos mais cortados. Como o Marco vinha devagar de mais e eu não conseguia entender o motivo, pedi ajuda da Lilian para motivar o Marco quando ele chegasse. Senti o PC pressionar pela falta dos outros integrantes. Fiquei feliz de ver a Camila e em seguida o Togumi. Vi a Lilian correr atrás do Marco e voltar dando grande apoio moral para ele.
Marco – O Toga e o Fidel mandaram super bem na navegação, mas eu nessa hora já não andava mais. Estava com os dois pés machucados e não conseguia colocar o calcanhar no chão. A dor era muito forte, então fui aos trancos e barrancos para poder chegar até o PC/AT do corte. O desespero já batia em meu coração, pois já eram 6h da manhã e ainda estávamos há alguns km do AT. O Fidel correu como gente grande e foi na frente, enquanto eu ia me rastejando como dava. Quando estava chegando, encontrei o Robinson, que logo não pensou duas vezes, me abraçou e começou a me ajudar a caminhar. Para mim foi um grande alivio, já que o meu peso não ficava todo sobre os meus pés. Um pouco adiante vejo a minha esposa, vindo correndo, com uma cara de preocupação e me perguntado o que tinha acontecido. Falei das minhas dores e logo me agarrou e começou a me ajudar. Naquela hora eu quase desabei a chorar. Ela me falava: ‘vamos lá que vcs estão bem e já passaram pelo corte, agora é só completar’. O meu coração batia forte e ao mesmo tempo engoli as lágrimas. Ela sempre acreditou na gente e não seria agora que eu ia desapontar essa mulher guerreira, que sabe conviver com todas as dificuldades e dores que aparecem nas provas. Então, fui à luta.
Cheguei ao PC/AT carregado pela minha esposa e logo na entrada encontramos os médicos, que estavam indo tomar um café e logo iam passar no nosso apoio para fazer o atendimento. Foi aí que descobri que poderia estar com pequenas fraturas por estresses de tanto usar os pés. Nosso amigão Gustavo, o Gú da Neaf Fisioterapia, e mais um médico da equipe Armada me deram uma ajuda. Logo depois o médico da organização chegou e fez uma mobilização nos dois pés. Ficou ótimo e eu poderia chegar até o próximo AT, com mais 22 km de trekking.
Descansamos por duas horas e todos com os curativos em dia, fomos à luta. Depois de um trekking por estradas até o próximo AT, chegamos e fui direto trocar o meu curativo. Os médicos fizeram mais uma mobilização reforçada. Um deles vira e fala: ‘Se eu fosse vc não continuaria na prova. O seu pé está muito ruim’. Faltando apenas 30km de bike e mais 25km de remo eu iria desistir? JAMAIS!
Togumi – Aproveitei para cuidar dos meus pés pela última vez. E o fato engraçado foi que havia um médico e um socorrista me atendendo. Quando já estavam finalizando o curativo sinto uma dor muito forte e disse “Você está louco???” O socorrista estourou uma das bolhas que eu tinha no pé e puxou a pele vagarosamente pensando que fosse um pedaço de esparadrapo que estava preso no meu pé. O cara ficou tão mal com ele mesmo, que me pediu um milhão de desculpas.
Bom, dores à parte, seguimos de bike até o último AT, percurso fácil e rápido. Ao chegar, avistamos nosso carro de apoio, mas não os apoios. Fomos informados que tinham ido jantar. Procuramos e os encontramos numa pizzaria. Comemos, conversamos e fomos dormir para nos recuperar para a última etapa de um sonho.
Às 5 horas relargamos. Na correria, esqueci o meu colete de prova e como estava muito estressado com o nosso atraso resolvi não voltar para pegar. Decisão errada, já que tinha remado apenas 10 minutos. Após 30 minutos, meu arrependimento era gigantesco e ficava xingando a mim mesmo em pensamento. Já estava articulando uma cena em minha cabeça, na qual eu passaria mal na chegada para desviar a atenção de todos sobre o meu colete de prova. Vê se pode isso?!?
Pensei não vou contar a ninguém, porém quando o caiaque do Marco e do Fidel chegou perto do nosso a primeira coisa que escuto é: “Toga, cadê seu colete de prova?”
Respondi: “ESQUECI”
Numa das paradas para descansar perguntei para o Marcão se a Lilian levaria o colete para o próximo PC e mesmo antes de eu terminar a frase ele disse que sim. Remei todo o trecho olhando para a praia, tentado identificar a Lilian e o Anderson. Quando chegávamos próximo a PC disse ao Marcão que não iria até a praia para que ninguém da organização me visse.
Fiquei olhando atentamente a aproximação do Marco e do Fidel e quando desceram do caiaque vejo a Lilian jogar meu colete no caiaque deles. UFA! Que alívio !!!!
Lilian, vc é demais !!!!
A chegada
Marco – Partimos para a Praia dos Ossos para a chegada, de longe já estávamos escutando a música do Ecomotion e o Jeff falando ao microfone. Ficamos todos juntos, quando se aproximava cada vez mais a grande chegada……… uhuuuuuuuuuuuuuu Chegamos!!!! Só era alegria, com muitas lágrimas de uma linda conquista. O que mais me deixou feliz ao chegar foi ver a cara da minha esposa. Ela estava tão feliz e alegre como se estivesse corrido, pedalado, remado a cada metro junto com a gente. Isso me fez muito feliz ao ver toda a alegria dela, com um abraço emocionado e com muito amor. Senti que ela estava realizada e muito aliviada por nossa equipe ter chegado ao final da prova e sem sofre nem mesmo um único corte, uma alegria do tamanho do mundo.
Togumi – Para mim foi um momento de muita alegria e emoção que eu procurava desde 2003, quando participei da minha primeira corrida de aventura expedicionária de 5 dias.
Desde então foram 2 Ecomotion Pro e 2 Desafio dos Vulcões, todos incompletos. Passou um filme muito rápido de todas essas provas na minha cabeça, comemorei com meus amigos, companheiros e amigos. Senti um grande alívio e uma felicidade enorme, afinal eu havia completado um prova de 5 dias.
Fidel – Fomos chegando aos poucos e o sentimento de dever cumprido parecia mais forte. A emoção aparece. Gritos da praia e o nome Guaranis aparece. Fotógrafos e Amigos. A conquista está pela frente. A realização. Chegamos!
E uma explosão de emoções acontece. Vejo a nossa equipe chorar. Vejo os nossos professores chorarem. Foi muito bom chegar. Receber os abraços de todos. Receber o abraço gostoso da nossa equipe.
Marco – Foi muito bacana poder chegar e ver os nossos apoios e amigos, Lílian (minha esposa), Anderson (meu irmão), Robinson, Sandra, Nath, Márcio, Caco, Fê, Xiquito, Jeff, e mais todos os telefonemas que recebemos de nossos amigos. Foi realmente emocionante.
Fidel – Fica o sentimento de entrar para história. Não temos somente histórias, fazemos parte da posteridade. Alcançamos um degrau à mais. Desejo do objetivo alcançado. Não há nada melhor do que isso.
Agradecimentos
Marco – Muito obrigado a Deus, por me permitir ter muita saúde e poder fazer o que mais gosto na vida. Obrigado à minha equipe – Camila, Fidel e Toga – pelos momentos maravilhosos que vivemos juntos e por agüentarem esse cara chato.
Um obrigado todo especial para o Alã, que não pôde ir com a gente nessa prova por problemas particulares, mas que esteve ao nosso lado todo o tempo e sempre presente através de vários vultos que nos apareciam.
Valeu família Guaranis, por todo o apoio e incentivos….. Gesi, Tony, Vit, Silvio (Monstrinho), Michael, Mó, Ricardo, Sheila, Cris.
Um obrigado mais do que especial para a minha esposa, que sempre esteve presente em todos os momentos e jamais deixou a equipe desaminar. Essa mulher é a minha referência. Quero ser como ela quando eu crescer.
E é lógico, a equipe agradece de todo o coração aos nossos apoios Anderson e Lílian, que sem eles isso não seria possível. Aí Anderson, vamos cobrar a sua promessa, vai ter que parar de fumar.
Fidel – Obrigado à todos que nos deram forças e pensamentos positivos. Com certeza pensei em todos, principalmente no Anderson, para termos forças de fazer uma prova limpa e sem cortes.
Obrigado à todos também pela oportunidade de correr esta prova. Sem a Paty, sem o Gus, o Mó, Marcinho, Caco, Pedrão e cada um das pessoas que treinei junto, eu não ia me sentir preparado para tal aventura.
E finalmente obrigado ao Marco, Togumi, Camila, Lilian e Anderson por formarem essa equipe tão ímpar, mas acima de tudo uma grande família.
Vai aqui a minha desculpa pelas demoras nas transições. Na corrida, eu sentia como se estivesse em casa e todos os dias ia fazer um treino longo, mas tinha a certeza de voltar para o aconchego e o carinho da minha casa. Obrigado Lilian e Anderson por tornar cada transição em minha casa, onde recuperava todas as minhas energias e recarregava o meu ânimo.
Togumi – Agradeço a todas as pessoas que torceram e se preocuparam com nós durante todos esses 6 dias.
Especialmente:
Lilian e Anderson, pois sem o apoio de vocês esse objetivo nunca teria sido alcançado. Vocês não imaginam como era bom vê-los nos ATs. Os apoios são assim chamados em razão de nomenclatura, pois eles são tanto competidores como nós.
Claudia (namorada) – que sempre me apoiou e me incentivou em todas as minhas aventuras, não apenas nas competições, mas principalmente nos treinamentos, finais de semana sozinha em razão de eu estar treinando ou dormindo.
Pais – Pela paciência e incentivo.
É isso aí. Até a próxima!!!