Relato Equipe Apoena no Brasil Wild Extreme – Desafio das Fronteiras 2008
“Ei dor eu não te escuto mais, você não me leva a nada!
Ei medo eu não te escuto mais, você não me leva a nada!
E se quiser saber para onde eu vou… Pra onde tenha sol de 40 graus, é pra lá que eu vou!”
Antes da prova: medo, ansiedade e nervosismo. Meus nervos estavam à flor da pele.
Você já viu alguém discutir com outra pessoa porque o miojo light foi misturado com o miojo normal? Pois é, foi ridículo! Ainda bem que o Fábio tem muita paciência comigo.
Briefing:
Show local contando um pouco da história de Lampião e Maria Bonita, algumas palavras dos políticos e patrocinadores, mas a atração principal ficou por conta do Major do exército quando falou sobre o Raso da Catarina que junto com o Canion do Rio São Francisco eram as 2 grandes atrações da prova:
“Não posso dizer que o Raso da Catarina é um lugar inóspito como todos afirmam, pois existe vida no local. Porém, não é um lugar adequado à sobrevivência humana!”.
(Nesse momento, aplausos e gritos de UHUUUU soaram por parte dos atletas)
Outra citação do Major chamou à atenção de todos:
“A região é bastante árida, a presença da água é instável e por isso a vegetação é bastante seca.
Mas duas plantas merecem cuidado: uma delas a cansanção, uma planta urticária, e não adianta usar calça, pois ela ultrapassa o tecido.
A outra grande preocupação são os espinhos, principalmente o mandacaru. Lembrando também que por causa do calor, as plantas estão muito secas e com galhos retorcidos, se vocês caírem de bike em cima delas, o galho se quebra e é como uma lança cravando seu peito. O que é muito comum acontecer!!!”
(Novamente, aplausos e gritos de UHUUUU soaram por parte do atletas)
O que será que passou pela cabeça do major nessa hora: Esses atletas são loucos ou então não tem a menor idéia de onde estão se metendo.
Largada: adrenalina subindo, medo e ansiedade baixando. Ao toque da buzina pronto, início da prova e o medo, o nervosismo e ansiedade dão lugar a adrenalina e a imensa felicidade de estar ali naquela hora praticando o esporte mais LOUCO do mundo: Corrida de aventura é uma vida resumida.
“Ei medo eu não te escuto mais, você não me leva a nada!”
Prova: (343km – percorridos no 1o. corte)
57km canoagem
75km trekking
80km MTB
43km trekking
42km MTB
46km canoagem
Resumindo um pouco do que foi essa aventura:
Prova com pernas longas, lugares lindos, paisagens bem diferentes, muito cactus, nada de mata fechada ou subidas intermináveis, prova bastante plana. Mas, o grau de dificuldade foi alto, devido ao forte calor e terreno arenoso, areia fina que entrava pela tela do tênis e causava muito atrito até formarem AS BOLHAS que acabou com o pé da maioria dos atletas.
Essa prova deu uma lição de vida pra todos, por causa das pessoas que encontramos: Um povo sofrido, que tem quase nada e ainda assim, canta, ri, abre as portas da sua casa e te manda entrar, oferece ajuda. Povo bem humorado, simples com um coração enorme. Povo hospitaleiro, bem diferente do que estamos acostumados.
Agora segue relato normal da prova:
57km canoagem:
Largada na Usina, adrenalina a mil, helicóptero sobrevoando a largada, hino nacional e bandeira sendo hasteada.
Depois disso, descemos 11 andares até chegar no túnel da usina que nos levaria ao rio São Franciso.
Para haver um equilibrio entre as equipe de ponta (20 equipes) foram obrigadas a usarem o mesmo tipo de embarcação. Ducks da mesma marca e modelo.
Após isso, houve um sorteio entre as equipes restantes. Fomos a 3a equipe a ser chamada e logo fizemos nosso eleito.
Duck pequeno e rápido!!! Depois descobrimos que as almofadas das costas estavam esvaziando. Bom, demos um jeito com as mochilas mesmo e melhor as almofadinhas do que as bananas do piso e lateral. Ducks furados: LA-MEN-TÁ-VEL.
Fábio e Razera foram nadando e eu e o Robinson ficamos cada um num duck prontos para quando fosse dada a largada remarmos feito loucos resgatar nossos companheiros de remo.
E assim foi feito. Depois do Marcio quase ser atropelado por 2 ducks, consegui resgatá-lo.
Passado o sufoco, pudemos curtir aquele remo maravilhoso. Que lugar fantástico. Remar no canion do Rio São Francisco foi demais.
O remo não rendia, e tentamos várias coisas, trocar as duplas, clipar o duck, e nada. Tava difícil chegar.
Fiz muita força no remo, tanto que depois até recebi um elogio do meu companheiro de remo:
- Vê se no próximo remo não fica passando manteiga na água!!!
Prefiro não comentar o que pensei nessa hora. >:(((
Um destaque para o Robinson que zerou a navegação, foi perfeito!!! O inicio era tranquilo, mas após sair do canion a coisa complicava e já era noite. Ele mandou super bem e chegamos sem erros no PC.
Aliás essa dupla Razera e Robinson foram show!!! Perfeitos na navegação durante a prova inteira, valeu meninos!
Chegamos na 1a transição:
Um Andressão (amigo engenheiro muito objetivo e prático que tenho) baixou em mim nessa prova. Consegui me enrolar em todas as transições.
Chegava na transição e um ponto de “?” pairava na minha cabeça. Lixo total.
75km trekking:
Já no começo por causa da areia, as bolhas começaram a surgir.
É dureza, logo no 2o. dia já ficar com o pé machucado.
“Ei dor eu não te escuto mais, você não me leva a nada!”
O sol tava forte, um calor animal, já falei que fez calor lá?
Estávamos no trecho mais difícil desse trekking, areião e sol do meio dia.
De repente escutamos umas passadas e pensamos, não, não pode ser alguém correndo nesse ritmo… Mas era, passou por nós um “maluco” sem estar ofegante dizendo:
- Meu amigo esqueceu a aliança dele lá no PC, voltei para buscar!!
Isso é que é amigo viu.
Fizemos uma parada para cuidar dos pés do Fábio, a essa altura eu, Fábio e Marcio já estávamos com bolhas, comer e descansar um pouco.
Como o ritmo estava bastante lento, sugeri que no lugar de dormirmos (2 horas) no próximo PC onde encontraríamos as caixas, fizéssemos essa parada lá assim dava tempo do sol baixar um pouco e conseguiríamos melhorar o ritmo, e passaríamos direto pela caixa sem dormir lá no PC. Depois de 3 “NÃO”, continuamos seguindo. Paneleiros!!! Mas, foi uma sábia decisão. O descanso no PC junto à nossa caixa foi fundamental para seguirmos em frente.
Uns 10 minutos depois o Robinson, encontrou o oásis!!! Era um filete de água com uma árvore fazendo sombra, não tivemos dúvidas, deitamos ali e ficamos alguns minutos, apenas esperando o radiador esfriar. Chegamos até sentir frio! Achamos que nunca mais teríamos essa sensação.
Isso deu uma renovada e seguimos até finalmente chegar numa vila e encontrar um local para comer.
Havia 2 opções de lanche:
“Pão com ovo” (invenção do nosso amigo Fidel que correu na Guaranis (equipe que a todo PC perguntávamos se estavam bem e qual era a colocação, assim como a equipe dos nossos professores Selva Aventura) e passou nesse lugar antes de nós) ou “Pão com ovo e salame” (aposto que isso foi invenção do Marco da Guaranis tb, ele é cara mais tranqueira que eu conheço). Depois descobrimos que o salame era mortadela.
Comemos e fomos em embora. Putz, no caminho vi que tinha esquecido meus óculos lá, voltei e não encontrei.
5 minutos depois, vem uma moto e o dono do lugar estava com o óculos na mão e perguntou se eu era a moça do óculos, sim era eu e era meu óculos.
Agradeci imensamente e seguimos. Existe gente honesta no mundo!
Resolvemos ir por um outro caminho, e quando estávamos subindo a trilha encontramos a equipe Pé de Cobra, do nosso amigo Mó. Foi uma alegria imensa encontrar com eles ali.
Seguimos juntos até o PC onde encontraríamos as caixas e no nosso caso dormiríamos pela 1a vez em 40 horas.
Tomamos banho, jantamos e fomos dormir (3 horas de sono). Acordamos ao amanhacer, a equipe Pé de Cobra saiu um pouco antes de nós, decidimos que não íamos juntos, pra uma não atrapalhar o ritmo e objetivo da outra. Juntar equipes nem sempre é uma boa opção.
Às vezes é necessário para passar algum perrengue, mas depois é cada um por si de novo.
E querendo ou não, como somos amigos, acaba virando uma grande festa e isso prejudica a navegação e concentração.
80km MTB:
Pedal lindo!!!! Até que enfim, trocamos de modalidade.
O percurso era menor, mas foi aumentado, porque o rio que iríamos transpor com barcos do exército, estava muito cheio e correndo muito.
Tivemos que dar uma “VOLTINHA” a mais.
Antes de pegarmos a ‘rodovia’, passamos por uma cidadezinha e paramos para comprar lanches:
Haviam umas senhoras que puxaram conversa, perguntaram de onde éramos, o que era aquilo, etc…
Aí depois de explicarmos uma delas virou e disse:
- É penitência é?
Nunca tinha ouvido uma definição tão original para corrida de aventura.
Bom, seguimos em frente pegamos a ‘rodovia’, pedal show, estrada de terra batida com pedras soltas, descidas tranquilas e até um downhill um pouco técnico que eu desci em cima da bike!!!!
Subidas fortes e depois uma reta maravilhosa até a chegada no asfalto.
No asfalto, estava na frente quando vi um caminhão parado no meio da rua, várias pessoas e a equipe no Mó, sinalizando e nos oferecendo melancia.
Achei que era o PC e até gritei para os meninos que tinha chegado. Não. Não era o PC, era apenas o Mó e sua equipe se refrescando com a melancia que o pessoal tava carregando no caminhão para vender, e que fizeram questão de nos dar. Foi demais!!!
Todos hidratados, agora vamos embora. Pé de cobra sai novamente na frente e nós um pouco mais pra trás.
Chegamos juntos no PC e lá fizemos uma parada para comer, antes de iniciar o próximo trecho.
43km Trekking:
Queríamos começar subir a serra de dia ainda e aproveitar que o sol já estava mais fraco e não ia nos desgastar tanto, como fez no dia anterior.
Encontramos a trilha e iniciamos a subida de dia, nossos navegadores são feras!
O Razera estava o bicho, falava, berrava, tirava sarro, o homem tava louco, mas sabíamos que ao cair da noite isso ia mudar.
Ele ficava 1/2 hora acordado, alerta, vivo e depois 4 horas em alfa, o Fábio então começou a contagem regressiva.
Enquanto isso iniciava um debate entre o Robinson (capitão da Uirapuru) e o Fábio (capitão da Apoena), cada um falando em como ser capitão e motivar sua equipe.
Eu e o Márcio ficamos só ouvindo e à as vezes fazíamos nossos comentários paralelos… O debate tava animado!!!
O lugar era lindo, e chegamos no topo com facilidade, nessa prova não houve grandes subidas. As subidas são bem menores do que estamos acostumados em provas aqui em São Paulo por exemplo. A dificuldade estava no terreno “areia” e no clima “calor e sol forte”.
Caminhar no topo daquela serra à noite, com aquele céu aberto, lotado de estrelas foi nossa recompensa.
No meio de tanta areia e cobras e bichos estranhos, arrumamos um local para jantarmos. Sentamos e abrimos nossas mochilas para ver o que tínhamos de refeição: Miojo crú e papinha de neném salgada e para sobremesa papinha de neném doce! Aiii que delícia!! Além das guloseimas, mocinha, chocolates,
gels, barras de proteínas, castanhas, frutas secas, azeitonas, bolachas doces e salgadas, bolinhos, ana maria, o bom dessas provas é isso, comer à vontade tudo o que quiser sabendo que mesmo assim vai emagrecer!! Melhor SPA não há!
Voltamos andar agora para descer a serra. E entrar na parte de navegação mais complicada desse trecho.
Passamos por uma casa no topo da serra, as pessoas dormiam, mas com o barulho que os cachorros faziam eles acordaram e vieram falar conosco:
- Boa noite, passou muita gente por aqui?
- Boa noite. Vixe! Um tantão. Ainda vem mais é?
- Vem. Ainda vem mais. O senhor sabe onde é a estrada para descer a serra?
- Sei sim, o cê segue reto aqui, vai em frente e vai passar uma casa e um cemitério de crianças pagãs.
- Cemitério de crianças?
- É sim, qdo morre um pagãozinho, ele é trazido pra cá e enterrado aqui em cima separado dos outros. Então passando o cemitério o cê vira e segue… etc etc etc
- Tá bom senhor, muito obrigado viu. Boa noite.
- Boa noite.
E lá fomos nós.
Fomos, passamos, seguimos, viramos e nada. Voltamos até a casa de novo. E au au au, boa noite! Boa noite!
Fomos, passamos, seguimos, viramos e nada. Voltamos até a casa de novo. E au au au, boa noite! Boa noite!
Fomos, passamos, seguimos, viramos e nada. Voltamos até a casa de novo. E au au au, boa noite! Boa noite!
Fomos, passamos, seguimos, viramos e nada. Voltamos até a casa de novo. E au au au, boa noite! Boa noite, e o Senhor veio falar com a gente:
- O céis num acharam não é?
- Não. A trilha fecha lá e não tem saída.
- Perae.
O bondoso ou de saco cheio, senhor, nos levou até o caminho correto e…
Fomos, passamos, seguimos, viramos e trilha fechada, seguimos reto mesmo assim e pronto. Abriu uma avenida na nossa frente.
Pobre senhor conseguiu finalmente dormir e se livrar da gente.
O sossego do senhor durou alguns minutos, pois a equipe do Mó vinha logo atrás e ele explicou tudo de novo para eles e mandou eles correrem porque tinha uma equipe logo ali na frente assim eles seguiam o mesmo caminho.
Resolvemos seguir juntas as 2 equipes dali. No caminho havia mais um equipe dormindo na estrada e uma outra que foi por outra trilha.
Já disse que muita gente junta dá bagunça né? Pois é, passamos batido numa informação importante e nos perdemos, mas, deu tempo de arrumar o erro e conseguimos descer a serra. O dia já estava amanhecendo quando chegamos numa outra vila, e uma senhora nos ofereceu água e café, a água não aceitamos mas o café…
Eles trouxeram uma garrafa de café que tinha acabado de ser feito, um prato cheio de bolachas e uma garrafa de coca-cola gelada.
Aí a senhora disse que precisava falar uma coisa que tinha acontecido, que Deus era testemunha que ela não fez por mal, mas que aquilo tava matando ela. Antes de nós havia passado uma equipe que comprou coca-cola e pagou, e quando ela foi buscar o troco o pessoal tinha ido embora. Que ela ficou desesperada porque não conseguiu dar o dinheiro ao moço porque ele não esperou.
Que se eu encontrasse com ele que era para dizer isso a ele. Existe gente honesta no mundo!
Depois ela perguntou se havíamos jantado, e dissemos que não. Ela disse que gostaria de dar comida para nós, mas que não sabia que iríamos por isso não fez. Que era para avisar a próxima vez que passarmos por lá. O povo é muito simples e não sabe o que fazer para agradar.
Nisso o Mó, amigo nosso, perguntou se ela conhecia castanha, ela disse que não. Ele ofereceu a ela que experimentou e gostou.
Então ele deixou o saco de castanhas lá com ela. Ela ficou muito contente e disse que ia guardar para não acabar logo.
Sem contar as bolachas e doces q distribui quando passávamos em casas que tinham crianças.
Essas pessoas são boas demais. Parabéns bravo povo nordestino. Pelos seus valores, hospitalidade e amor ao próximo.
Segundo os locais faltava 1 légua para chegarmos ao PC, o problema é que eles não tem muita noção de distância e 1 légua pode ter vários tamanhos, dependendo se você está de bicicleta, a pé, a cavalo, ou de carro.
Até carona nos ofereceram e quando dissemos que não podíamos aceitar, eles ficavam com dó e falavam:
- Coitados, tem que ir a pé.
Finalmente chegamos no PC onde pegaríamos as bikes. OBA trocar modalidade!!!!
42km MTB:
Decidimos que ficaríamos 2 horas ali. Então dava tempo para comer, dormir e cuidar dos pés.
Retirei os esparadrapos e refiz o curativo nas bolhas.
Fomos até uma padaria que tinha acabado de abrir, sim, as coisas fecham para almoço. E preparei uns lanches para levar: pão com mortadela. Delícia!
E ainda tive que ouvir que é para isso que serve a mulher da equipe.
Iniciamos o pedal às 14:30hs o sol estava forte e como todo castigo para corredor de aventura é pouco, logo de cara, erosões, rios e AREIA pela frente, ou seja, puxe-bike e lá se foram os curativos das bolhas… Aiii como ardia.
Cada vez que tínhamos que colocar os pés no chão para andar era uma dor insuportável.
O pedal não era técnico, era simplesmente impedalável!!! Foi muito puxe-bike até chegarmos no topo de um morro, mas valeu à pena, o visual era maravilhoso!
Como alegria de corredor de aventura dura pouco, logo começou nosso inferno: Pedalar no areião.
Era giro forte, pedalada forte e tombo, aí levanta, gira forte, pedala forte e tombo de novo… rs…
Nesse trecho o Marcio deu seu ‘desabafo’:
- Gente, senta aqui 10 minutos, olha não faz sentido isso. Estamos num pedal que não se pedala.
Nós 3 sentados olhando para ele e ele:
- Não faz sentido nenhum isso. Tá enchendo o saco. A gente não consegue pedalar.
Nós 3 sentados olhando para ele e ele:
- Carregamos as bikes no começo desse pedal, mas tinha um objetivo que era chegar no topo da serra e ver aquele visual lindo. Mas, agora?
Nós 3 sentados olhando para ele e ele:
- Pra que pedalar nessa areia?
Nós 3 sentados olhando para ele dissemos:
- Márcio, VAMBORA!!!!
Nesse momento eu fiquei com medo que ele falasse a palavra não se pode dizer numa situação dessas: desistir! Então o Robinson e eu resolvemos aumentar o ritmo para sair logo dali. Começamos andar mais rápido e foi ótimo, porque a equipe entendeu o recado e entrou nesse ritmo tb.
Bom, esse trecho acabou virando uma brincadeira, de quem ficava mais tempo pedalando na areia sem cair. Hummm, não houve vencedor.
Alucinação:
Tive uma nesse trecho, quando descíamos uma estradinha e passávamos por uma valeta. Tive a sensação de ‘DÉJÁ VU’ só que a valeta era um riacho… No meio do deserto? Fiquei confusa por alguns minutos, sem saber o que era falso e verdadeiro. Sensação muito estranha.
Finalmente chegamos na estrada pedalável e depois asfalto, nossa voamos até a cidade!
Chegamos no local onde encontramos nossas caixas pela última vez e onde dormimos até o amanhecer. Não queríamos entrar na represa à noite. Seria suicídio. Estavamos todos cansados e com sono.
Havia um orelhão, e liguei para casa, para falar com meus filhos e matar as saudades, foi demais.
Liguei também para a Lilian (Guaranis) que se emocionou muito ao ouvir que estávamos bem e iríamos iniciar de manhã nosso trecho final. Lilian, foi muito bom falar com você naquela hora!!!
Tomamos um banho, refizemos os curativos das bolhas, jantamos e fomos dormir.
46km canoagem
Acordarmos cedo e saímos de lá as 06:30hs. Teríamos saído mais cedo, mas, tivemos que trocar de duck 3 vezes porque estavam furados.
Ducks furados: LA-MEN-TÁ-VEL.
Remamos até o PC10 onde havia um banner pendurado no topo de uma igreja onde as equipes deveriam passar e assinar, além de PC virtual era uma recordação da prova para a organização.
Paramos os ducks perto do banner e assinamos. Pra quem não sabe, Petrolândia, foi mudada de lugar e depois alagada. E só essa igreja ficou com um pedaço para fora: o teto.
Era sinistro remar ali e saber que embaixo de nós havia uma cidade submersa… Várias cenas de filmes de terror passaram por nossa cabeça.
Remamos forte até a barragem e dessa vez o Razera me ensinou técnica de remo, e pedia para remar mais forte, quando resolvi perguntar:
- Só por curiosidade, você já remou com mulher em prova???
- Em prova não, sempre remei com homens.
Obrigada Razera, a partir desse momento vi que qualquer força que fizesse não seria suficiente. Com o Robinson também é assim, ele tá acostumado remar com homem, então quando rema com mulher reclama. Será que precisa desenhar? Meninos, homem tem muito mais força!!!
Chegamos na barragem onde faríamos uma portagem, fizemos isso muito rápido e passamos 2 equipes nesse ponto.
Continuamos remando, e quando faltava pouco para chegarmos começou nosso tormento.
Remávamos muito, mas o remo não rendia. O vento tava contra e foi muito difícil passar por ali. Já estava anoitecendo e o Fábio resolveu motivar a equipe:
- Pessoal, é o seguinte, não pedi nada a prova inteira, mas agora vou pedir: Não gostaria que a equipe que está aí atrás chegasse na nossa frente, então dá pra remar mais depressa?
Fiquei p… Meu braço estava quase descolando do ombro, minha mão já dava sinal de tendinite e meus dedos estavam cheios de bolhas, que agora se transformaram em calos, minha mão hoje tá parecendo de pedreiro!!!
Hora do meu ‘desabafo’:
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E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E… *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#
E antes que eu me esqueça *&@#*(@#(*@#*(@#(*@&#@^#&@^&^@#&^@&#^&*@^#*&@^#!!!
Continuamos remando e eu chorando de ódio e reclamando, coitado do Razera…
- Isso lá é coisa de se pedir faltando 15km para chegada???
Eu estava exausta, não aguentava mais remar. E o pior, não podíamos parar, senão o vento nos levava de volta, olhamos para trás e havia outra equipe chegando… Que stress.
Passou mais um pouco e resolveram clipar o duck um no outro, para ver se rendia… Foi anoitecendo, o remo parecia interminável foi quando disseram que era brincadeira, que dane-se que a outra equipe passasse, que estavamos lá para terminar a prova e não estavamos nos preocupando com posição.
Tudo resolvido, continuamos remando sem clipar os ducks mesmo.
A essa altura eu estávamos com muito sono, e cápsulas de guaraná já não resolviam mais.
Estávamos exaustos, e nervosos com aquele remo sem fim.
O Robinson que nesse dia estava um pouco gripado, foi ficando cada vez mais cansado e isso me deixava mais preocupada ainda, ele estava cada vez mais debilitado.
Procuramos uma maldita ilha que havia no mapa e não estávamos conseguindo encontrar ali.
Chegamos num pier e perguntamos a um rapaz que estava lá se ele poderia nos ajudar.
Essa cena foi engraçada, porque havia um pier onde estava o rapaz, aí água, um outro pier e nós.
Quando perguntamos se ele poderia vir até nós, ele não teve dúvida, pulou na água e veio nadando!
O cara era doido!
Bom, nos disse que o bairro que procurávamos era ali. Ótimo!!! Mas e a ilha?
Remamos mais um pouco e vimos as luzes de Paulo Afonso. UHUUUU chegamos!!!
Agora tá no fim!! Que nada, remamos, olhamos para o lado e lá estava o morro. Remamos mais, olhamos para o lado de novo e lá estava o morro no mesmo lugar… Não saíamos no lugar… O vento tava ficando mais forte.
Aí mais hora do ‘desabafo’:
- Buááááááááá, a gente rema e não sai daqui! Não vamos sair daqui nunca mais!
O Razera com toda educação e delicadeza respondeu quase sentando o remo na minha cabeça:
- Fica quieta e rema! Tá achando que queremos ficar aqui é? Vamos remar que a gente sai!
Achei melhor ficar quieta e remar, mas continuei chorando TÁ! As emoções ficam muito bagunçadas, chorava porque tava com saudade dos meus filhos, chorava porque tava cansada de remar e não saia do lugar, chorava porque minha mão doía… Chorava porque meu marido tava cada vez mais debilitado… Chorava para desabafar… Coisa de mulher.
Mais calma e com a represa mais cheia por causa das lágrimas de ‘desabafo’, voltei ao normal.
E foi aí que meu companheiro de remo me disse:
- Tá aí? Ótimo, é bom ter você de volta!
E parece que tudo a partir dali começou a dar certo, passamos o trecho ruim e entramos no canal.
Ufa!!! Finalmente terminamos o pior remo da minha vida.
Agora faltava pouco: era carregar os ducks por 2km até a chegada.
Descemos e quando estávamos saindo, vimos que uma equipe estava chegando babando para nos pegar.
Ahhhh não!!! Quer passar? Vai passar remando, ali no finalzinho no puxe-duck? Não!!! Vai tomar remada!!!
O Marcio e o Fábio estavam carregando os ducks e eu e o Robinson todo o resto.
Mas, o Marcio estava mancando por causa das bolhas, gentilmente, pedi ao Robinson que trocasse de lugar com ele.
Marcio carregou as mochilas e os remos e o Robinson o Duck. Que logo percebeu o porque dessa troca. Viu a equipe logo atrás.
Saímos correndo… É Marcio, hahahaha a troca não foi porque estávamos com dó dos seus pés!!
Chegamos no pórtico e 2 minutos depois chegou a equipe que nos disse:
- Vocês correram hein! Tentamos pegar vocês e não conseguimos!
Valeu equipe Aventureiros pela adrenada no final!!!!
E foi assim que eu e o Fábio terminamos nossa primeira prova longa, no corte e por isso não posso dizer que a minha missão foi 100% cumprida. Valeu muito à pena tudo e a experiência que ganhei. Com certeza na próxima estarei preparada para fazê-la inteirinha.
Ahhh sim, alguns amigos já me perguntaram se vou mesmo migrar de esporte (ultramaratonas), bom, amei fazer provas longas e quero mais! Portanto as ultras terão que esperar mais um pouquinho.
Conclusão Final:
O sono é complicado, a dor, o cansaço, o stress, a parte emocional fica muito afetada e conforme os dias vão passando você vai ficando além de cansado com o raciocínio mais lento. É estranho. Mas, nada disso te tira da prova. O corpo aguenta. O que faz você parar ou seguir é sua cabeça. Então se quiser fazer uma prova dessas, treine bastante o corpo e foque no seu objetivo.
Agradecimentos:
Aos meus filhos que me motivaram sempre e torceram muito! Pelo sacrifício deles em ficar longe dos pais durante os treinos longos e durante a prova, muito obrigada, nós amamos vocês!
Ao nosso amigo Marcio (Senta Pua) e ao meu marido querido Robinson (Uirapuru), obrigada por aceitarem o convite de correr na Apoena, obrigada pela imensa ajuda que nos deram, com experiências e navegação perfeitas.
Aos amigos que nos enviaram tantas mensagens de carinho, torcida e incentivo. Essa vibração sentíamos durante a prova.
E também as pessoas que não acreditavam em nós, obrigada, vocês não sabem, mas incentivaram muito! rs
Aos nossos treinadores Caco e Marcinho, sem vocês seria impossível chegar até o final.
E finalmente, obrigada à vocês que tiveram paciência de ler tudo isso!!!
Bjs e até a próxima,
Sandra
Equipe Apoena
http://www.equipeapoena.com/
Assista o Slide Show da prova no YouTube:
PARTE 01: ABERTURA E EQUIPES http://www.youtube.com/watch?v=CHHRn8011rg
PARTE 02: LARGADA E CANOAGEM http://www.youtube.com/watch?v=OWchon3tG4E
PARTE 03: PERCURSO http://www.youtube.com/watch?v=vUc34YYZXHY
PARTE 04: ESPECIAL DOR http://www.youtube.com/watch?v=w9z0GC3SkU4
PARTE 05: MAKING OFF http://www.youtube.com/watch?v=E5kPCWRNap4