Dureza de aventura
Como em todas provas, a largada começa no dia anterior e na etapa de Socorro da Haka Race não poderia ser diferente: trânsito – 132 km em 5h30 -; imprevistos – esquecemos de comprar lanche –, e pouco sono – 2h da madrugada fomos pra cama, com largada prevista para as 9h. E como nos últimos anos, toda prova estou saindo de uma lesão – coluna 2006/2007 e tornozelo nessa última etapa -, vamos embora que se for esperar ficar zerada só voltaria às corridas em 2100. Fisioterapia antes da viagem, bandagem funcional no pé e pronto.
Contagem regressiva com uns 20 minutos de atraso, foi dada a largada de trekking com o que seria um trotezinho seguindo o carro madrinha pela cidade de Socorro, a Cidade Aventura como é conhecida. A participação de diversos competidores de ponta empolgou a galera que parecia estar numa prova contra relógio. O trote promocional foi substituído por uma socação absurda, que chegava a assustar os moradores que passavam pelas ruas naquela manhã de sábado. Uma senhorinha de bengala paralisou quando viu aquilo que mais parecia uma boiada solta. Depois de dois meses sem correr, trotar ou mesmo andar forte, tentei com o Marco ficar no bolo, correndo até o rafting, com concentração total no pé para não doer – técnica zen, que o Gustavo da Neaf Fisioterapia me ensinou para não sentir dor e que deu certo.
Mais ou menos uns 7 km de corrida, com algumas subidas e o coração já na boca, até a sede da Canoar, onde teríamos que nos unir a outras duplas antes de entrar no rio do Peixe. Para nossa sorte – ou azar por causa da concorrência – entramos no bote com outra equipe mista e uma feminina, que corria na mesma categoria por falta de categoria própria (preconceito total ou falta de equipes suficientes?). Remada sincronizada e um instrutor nota 10 (valeu Felipe!), passamos outros dois botes, lotados de homens. Curtimos pakas as corredeiras e a cara dos atletas dos outros botes quando viam que tinham mais mulheres do que homens no nosso. Foi a melhor parte da prova.
Apesar de eu querer continuar na modalidade, rapidinho saímos da água, assinamos a planilha e mais socadeira de trekking/run. Pulamos uma cerca, subimos uma piramba, parada hidráulica e bora correr de novo numa estrada. Mais uns 7 km.
No caminho uma placa: 1 km para a Pedra da Bela Vista. Pelo nome já dá para imaginar o visual e, claro, o quanto alto era aquele lugar. Embora eu estivesse com o altímetro, o cansaço impediu que registrasse na memória a altitude. Passamos por um atleta que parecia estar na categoria solo, com cara de acabadinho e perguntei se estava tudo bem e se precisava de alguma coisa. Ele respondeu que precisava que rezasse por ele. Respondi que, do jeito que ia, já estava rezando por todo mundo naquela prova, que todos estávamos precisando.
‘Uhuu!!! 1 quilômetro e estaremos no rapel’. Já dizia o velho ditado: Boca fechada… O Má vira e fala que faltava um pouco mais, pois haveria um desvio para um PCvirtual. Um pouco mais de subida, um pouco mais de piramba, um pouco mais de paredão single treking. Estávamos fazendo o contrário de uma trilha de dowhill, cheia de obstáculos malucos que alguns xaropes descem de bike. Com certeza, se a organização tivesse traçado a rota para fazermos de bike, eu simplesmente teria jogado minha bike lá de cima e teria descido de esqui-bunda aquela trilha. Fácil, fácil!!!
Depois de vários pensamentos básicos ‘o que estou fazendo aqui?’, chegamos ao PC do rapel. Pausa para o lanche doado pela Apoena, enquanto o Má ia para o rapel sem luvas. Lanche de atum dividido em dois para economizar, reabastecimento de água cortesia da organização e, ops, ‘o que está acontecendo? Ai meu Pai!!!’ Corre, corre, que o lanche já fez efeito. Sorte que o PC da Pedra da Bela Vista era num restaurante super aconchegante e que, graças a Deus, tinha banheiro. Tudo ok de novo, bora comprar uma Coquinha gelada para revigorar. ‘Duas por favor, que o Fiúza Goiabada está precisando de uma também’. Eu indo às compras e lá vem a bronca: “Lia, vamos! O que você vai fazer ainda?”. ‘Nossa Má, já voltou?’.
Seguimos de bike, o Marco navegando e eu conversando com o atum, que insistia voltar às minhas lembranças. Terrível!!
Um oi para os Irmãos Metrilhas e pegamos uma subida interminável, acompanhados pela dupla mista que dividimos o bote no rafting. Fomos revezando posição e revezando as paradas para recuperação. No nosso caso eu que estava só o pó e no deles o rapaz que parecia ter câimbras. Cheguei a dizer para o Má perguntar para a menina se ela tinha equipe fixa. Quem sabe não topava entrar para a Guaranis? Rs
Passamos com mais de uma hora adiantados pelo PC do corte, que seria às 14 horas e iniciamos um trajeto que revezava entre dowhill e subidas infinitas. Boa parte delas fiz andando, com o Marco carregando as duas bikes. Às vezes eu carregava a bike dele que era mais leve que a minha e assim fomos até o PC do churrasco.
Churrasco no meio da prova? Sacanagem pura!!! Não sei se por educação ou porque sabiam que poucos aceitariam comer carne no meio de uma prova de explosão como aquela, fomos convidados a nos servir. Apesar da água na boca, seguimos nossa rota, acompanhados pelo cinegrafista da organização de garupa numa moto.
Dowhill, pedras, erosão e câmera ligada definitivamente não combinam. Travei os freios, reduzi a velocidade e até cheguei a descer da bike. Mil vezes me filmarem emburrando na descida do que pagando o mico de cair. Não mesmo! Perco colocação, mas mantenho o estilo.
A brincadeira acabou quando começou uma nova fase de subidas. Desta vez mais single trekking, só que com erosão e com a bike a tira colo. Novo revezamento de carrega bike e quase um desespero. ‘Má, tô esgotada!!! É sério. Acho que estou velha pra isso!’. Ele perguntou se eu queria descansar e claro que o orgulho não deixava. Mas confessei que cheguei a pensar em parar um pouco e até dormir, de tão que estava cansada.
Mas seguimos assim, parecendo duas tartarugas até o PC da rede. O amigo com toda a mordomia do mundo, deitado numa rede, vira e diz: ‘Agora é só subir e descer, que já está chegando’. ‘Só’ pra ele que estava deitadão, na sombra e na vida boa.
Perguntamos sobre a Apoena no PC 9 e continuamos pedalando. Eram cerca de 35 km o trecho total de bike, mas parecia uns 200 km. E nunca que a cidade chegava.
Num dos últimos dowhill, pessoas da organização gritavam mandando a gente reduzir. Mais à frente, a possível candidata a Guaranis no chão. Tinha caído feio de bike. Como um monte de gente já estava ajudando, só perguntei se tinham primeiros socorros e depois da resposta positiva continuamos na descida.
Uma equipe mista nos passou, faltando uns 4 km pro final. Se fosse em outros tempos até tentaria buscar. Mas na condição que eu estava, extremamente esgotada só pensei: ‘Vá com Deus, que vou terminar essa prova nem que seja em último, mas vou terminar’.
E terminamos!
Cansada, sem dor no pé, mas o principal: vivinha. Rsrs
Ficamos em 16º na geral e em 7º na mista.
Mas valeu a brincadeira, que só acabou com o retorno à Sampa, com jogo de tênis no Wii do Rics até a 1h da madrugada. Show!!!