Aventura em alto mar

Postado por em 14 out 2008 | Sem categoria

Em pleno fim de semana do feriado de 12 de outubro, enquanto muitos peregrinos caminhavam pela Dutra rumo ao santuário de Nossa Senhora Aparecida, nós seguíamos para o nosso destino: um bate-e-volta de São Paulo ao Rio de Janeiro. Rodamos 1.000 km – ida-e-volta – para participarmos da 63ª Regata da Escola Naval – Meia Maratona de Canoagem Oceânica Vilegagnon. A prova, de aproximadamente 15 km, aconteceria naquele domingo, em comemoração aos 200 anos da Escala Naval.

No carro estávamos o Marco e eu, que remaríamos num caiaque duplo oceânico novinho em folha emprestado e o Urso, que disputaria na categoria solo. Levando todos os equipos, incluindo barcos e remos, estavam o Vit e a Chris, a esposa do nosso professor de canoagem na Selva Aventura. Apesar de estarmos inscritos por Cubatão, a missão era representar nossa assessoria esportiva, o que só descobri na reta final da prova.

Chegamos na escola da marinha no final da tarde de sábado, onde fomos recebidos pelos aspirantes a cadetes. Alojamentos masculinos e femininos separados pelos extremos opostos da ilha que abriga a escola naval, com a vantagem de chuveiro quente para as mulheres. Depois de instalada num quarto com mais de vinte camas, dividas em triliches que mais pareciam caixões de defuntos, acabei descobrindo na prática que todos os habitantes – oficiais ou visitantes – da pequena ilha, que fica colada ao aeroporto Santos Dumont, passam os dias ali como se estivessem embarcados em alto mar.

Além das camas e dos chuveiros frios, as refeições copiam a teórica necessidade de coisas básicas. O jantar, servido às 18hr, era composto de arroz e frango desfiado com queijo. De sobremesa, um doce de banana (pelo menos acho que era banana) com alguma coisa avermelhada.

Complementamos nosso jantar com um sorvete comprado num posto de combustível a uns dois quilômetros dali. O mais divertido foi caminhar pelo pé da pista do aeroporto, que era aberta para qualquer um. Claro que, por precaução, quando um avião estava chegando, reduzíamos nossos passos. Depois da cansativa viagem e do jantar do chá da tarde, fomos para a cama antes do toque de recolher, que soou às 22hrs.

Toque de alvorada às 6h da matina, seguido pelo café da manhã de pão com manteiga, café e leite. Como a essa altura já não éramos mais tão amadores, complementamos nosso desejum com bolo, biscoitos e chá, comprados no dia anterior junto com o sorvete. O Vit, já experiente, tinha levado de casa suco de soja, bolo e até cereal, preparado num potinho especialmente reservado para a ocasião.

Prontos para a largada, eu de camisa Selva, o cheiro da maresia já estava incomodando o Marco, que, devido a uma hérnia no esôfago, tem facilidade pra enjoar mil vezes mais que uma mulher grávida. Fomos para a água mesmo assim, juntamente com centenas de embarcações, divididas entre caiaques de todos os tipos, duplos e individuais e canoas havaianas. A platéia já estava formada pelos oficiais da marinha, familiares e convidados presentes para os festejos do aniversário da escola.

Estrutura militar à risca, pontualmente as 8h30 foi dado o tiro de largada das havaianas. Às 8h33 era nossa vez nos caiaques duplos. Esperamos uma dupla atrasadinha se alinhar, mais um tiro, e bora remar. Como não sabíamos o caminho, nossa estratégia era não perder de vista o penúltimo. A idéia de ficar em último até que não era tão ruim, mas não achar o caminho seria o fim da picada.

A essa altura já passava pela cabeça uma perguntinha básica quando estamos numa roubada nas corridas de aventura: “O que é que estamos fazendo aqui?” A nossa experiência em canoagem no mar se resumia a um único passeio em Santos, num dia sem onda; não tínhamos treinado virar, desvirar e subir no caiaque na água; nunca havíamos participado de uma prova de canoagem no mar; não sabíamos o percurso; e ainda estávamos dividindo espaço na água com os melhores remadores do Brasil, entre eles o medalhista do Pan, Sebastian Cuattrin, a Carmen Silva, que também era da aventura, e nosso próprio professor e esposa, exímios canoístas.

Bom, não era hora de pensar e sim remar. Remamos, batemos em outros caiaques, caiaques bateram na gente, até chegarmos ao desafio da prova: fazer uma curva na laje que fica ao lado do Pão-de-Açúcar, com altas ondas ameaçando quebrar em cima da gente. Minutos antes uma dupla havia virado a embarcação e eu só pensava: “Porque não treinei no mar? Cadê o manual de subir no caiaque?”.

O Cuattrin, que havia largado depois, na categoria individual, já tinha passado passeando por nós. Passamos bem contra as ondas e continuamos remando, desta vez ao lado do Pão-de-Açúcar, mirando no Cristo e tentando surfar nas ondas que estavam a favor. Para nossa sorte, o Urso, que estava na individual, passou bem nessa hora e começamos a copiá-lo na direção, ao mesmo tempo que tentávamos não virar e não perder posição para uma dupla mista adolescente (Muita pressão!!). Não tínhamos idéia da nossa colocação, só sabíamos que o Vit e a Chris estavam bemmmm lá na frente, já perto das havaianas.

Passamos por um PC, ops!! Por uma bóia, onde tínhamos que fazer uma curva e ainda gritar nosso número. Enquanto o Marco tentava fazer a curva sem estacionar nosso caiaque, que era mega lento a cada curva, eu acabei gritando o número do Vit e da Chris. O Marco: “Você tá louca!?!” Eu: “Caracas, desculpa”. Consertei e continuamos remando, já com a outra dupla um pouco atrás.

Enquanto dávamos vácuo para um outro canoísta da solo, o Marco aproveitou para curtir o visual: “Nossa, olha que bonito!!!”. Minha resposta: “É, mas rema!!!”

Marco: “Nossa, mas é bonito mesmo!!!”

Eu: “Você está parando. Rema!!!”

Tadinho! Eu sabia que na verdade ele estava fazendo aquilo, porque já estava começando a enjoar, mas eu não queria que a dupla de quase crianças nos passasse.

Já mirando a ilha da escola naval, um outro caiaque duplo misto começou a se aproximar. Eu já desesperada, só falava: “rema, que você tá parando!”

“PQP, é o cara do Oskalunga!!! Rema, que eles tão chegando!”

Já não bastavam os feras da canoagem, ainda tínhamos na disputa velhos de guerra da corrida de aventura. Como o barco deles era muito mais fino que o nosso, e por isso, também mais veloz, eles nos passaram a praticamente um quilômetro da chegada. Logo atrás, mais um Oskalunga, na solo, tentou passar, mas se desequilibrou e acabou virando no trecho mais liso da remada.

Fizemos a última lenta bóia, que estava na direção da ponte Rio-Niterói, e demos um tiro para a chegada, colados na outra dupla. Infelizmente, sem saber, perdemos a terceira colocação para eles. Para compensar, Vit, Chris e Urso ficaram com o segundo lugar no pódio, atrás da Carmen na dupla e do Cuattrin na solo.

Valeu de mais a experiência e nosso batismo nas provas de canoagem. Prova linda, com direito a pódio Selva no final e uma feijoada de saideira no almoço.

Fotos no álbum.

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