Ultramaratona – O Desafio da Fé

Postado por Lilian Araujo em 28 jan 2009 | Sem categoria

Senta a Pua e Mario Lacerda na premiação- foto Emerson Bisan - o Papaléguas

Senta a Pua e Mario Lacerda na premiação- foto Emerson Bisan - o Papaléguas

O DESAFIO
=========
BR 135 Ultramarathon e BR217 Revezamento http://www.brazil135.com.br/

simbolo-br135

Dia da Largada: 23 de Janeiro de 2009, às 8:30 horas – Poços de Caldas, MG
Dia da Chegada: 25 de Janeiro de 2009, às 8:30 horas – Paraisópolis, MG

Com uma distância de 217 Km (135 Milhas) a serem percorridos em até 48 horas a Brasil 217 Revezamento é uma prova que tem por objetivo qualificar e formar ultramaratonistas.

Esta prova é extramente difícil, porque acontece nas montanhas da Serra da Mantiqueira, no trecho de maior dificuldade do Caminho da Fé: de Poços de Caldas à Paraisópolis, onde apenas 20 dos 217 km de toda a corrida são planos. Os atletas ao longo da prova “sobem e descem” um Monte Everest, com um total de mais de 10Kms de subida e aproximadamente 9 km de descida acumuladas.

mapabr135

A EQUIPE
========
Já tinha conhecimento da BR135, mas solo ainda era demais pra mim. Até que surgiu a chance de fazer em revezamento…

Sandra diz: E aí vamos?
Marcio diz: Vamos! E quem será o 3o. doido?
Sandra diz: Hehehehe, vamos convencer o Robinson oras!!!

Após vários (2) emails enviados ao Robinson, tentando convencê-lo, veio a resposta:
- Vambora fazer essa piiiiiiiiiii!!!!!

Equipe Senta a Pua => Marcio Razera, Sandra Simoes e Robinson Simoes

A INSCRIÇÃO
===========
Mandamos o currículo de todos os atletas e após análise do Mario Lacerda (Diretor da Prova), no dia 25/10/2008 recebemos o seguinte email:

Prezada Turminha,
Gentinha….voces não são flôr que se cheire não!!!!!……eita curriculo bom…..academico e de atleta… cs parecem uns caboco “istudioso” mas tb “dismiolado” com tantas ecomotions….
A unica diferença pra vocês ,vai ser a continuidade da BR217…é que nem cantiga de grilo…num pára!!!!!!

:-) :-) :-)

Sandra, por favor avise ao Robinson e ao Marcio ( ou tri-ci versa) que voces terão a oportunidade de superar o Pico do Gavião, a Serra dos Limas, o Pantano dos Teodoro, a Serra do Caçador e finalmente a Subida de Paraizopolis… serão mais que um monte Everest de subida acumulada e outro de descida acumulada….

Podem continuar treinando….vocês foram ACEITOS!!!!!!

O Importante é ” Divertir-se e Manter-se sorrindo”…esse é o nosso Lema.

A Eliana vai entrar em contato com voces para mais detalhes da inscrição …

Boa Noite e bons treinos

Dr. Mario Lacerda
Brazil 217 Ultramarathon – Revezamento
Race Director

O TREINO
========
Marcinho e Caco, nossos treinadores na Selva Aventura, montaram as planilhas.
Foram 3 meses de treinos intensos, longos, cansativos e doloridos.
Durante a semana treinos na USP (Biologia) e no IBIRA (volta de 3km).
E nos finais de semana, os Treinos Específicos (TE) aconteciam na Aldeia, ou em provas de Corridas de Montanha.
Fora o simulado, treino de dia inteiro, onde corríamos 2hs e descansávamos 2hs, isso com muito desnível.

O APOIO
=======
Essa prova necessita de apoio que também pode ser pacer (*) dos atletas. Obrigatoriamente o trabalho de apoio ou pacer deve ser feito de carro ou a pé.

(*) pacer é uma pessoa que acompanha o atleta em alguns trechos da prova, principalmente os noturnos.

Na semana da prova, fizemos uma reunião para tirar todas as dúvidas e conversar sobre nossa estratégia, com os apoios e treinador.

E como na vida nada é fácil, algumas horas antes da viagem tivemos problemas com nossos apoios, eu sei que ser apoio não é fácil, você tem que estar comprometido, abrir mão de alguns objetivos pessoais, mesmo que seja por alguns dias e se dedicar a 3 (três) malucos que supostamente são seus amigos, mas eu (Robinson) entendo perfeitamente.

Como corremos por diversão e não temos como objetivo atrapalhar a vida de ninguém “sem stress” e como o problema já estava estabelecido saímos na correria tentando arrumar alguém, mas estava difícil, a Lilian mandou email pedindo ajuda, pessoas que nem nos conhecem ligaram se oferecendo. Valeu galera!!

Conversamos e decidimos que mesmo não sendo fácil, não iríamos desistir, era mais um problema a ser superado. Então fechado: nós faríamos o nosso próprio apoio. Como era revezamento, não haveria tanto problema assim, exceto o lance do pacer noturno, pois teríamos uma mulher correndo um trecho à noite. Tenho certeza que isso nos deu mais força e união para completar a prova. Corredor de aventura é assim: Quanto mais difícil melhor.

Só que a vida é uma caixinha de surpresas e como Tennessee Williams disse:
A vida é em parte o que fazemos dela, e em parte o que é feito pelos amigos que escolhemos.

Marco e Lilian, compraram a idéia, deixaram os interesses pessoais de lado e na 6a à tarde pegaram o carro, viajaram quase 200km para nos encontrar no meio da prova. Foram mais do que apoios, foram nossos anjos da guarda.
Marco foi nosso pacer nos trechos noturnos e Lilian nossa apoio, massagista e capitã (só no chicote!! Marcinho você contratou ela né?). Além da cobertura quase on-line no site da Guaranis, pois nem todas as cidades havia sinal de celular ou muito menos local para se conectar a net.

A ESTRATÉGIA
============
A estratégia inicial seria correr 2 horas e descansar 4 horas.
O Marcinho alucinado, cada vez mais alucinado e comprometido fez a divisão dos trechos.
Respeitando a sequência: Robinson, Razera e Sandra.

A LARGADA – por Robinson Simões
===========

1o. Trecho – de Poços de Caldas até Águas da Prata – Robinson

Após o Hino Nacional, começa a contagem regressiva: 15, 14, 13, 12, 11…
Meu corpo inteiro tremia. Minhas pernas não paravam quietas, o coração saía pela boca, batimento cardíaco a 180 e aquela contagem era interminável.
…10, 9, 8, 7, 6…

Ao meu lado estava o Tuba também nervoso, estávamos na linha de frente completamente concentrados, junto com outros corredores feras.
…5,4,3,2,1!!!!

HUARRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!! Berrei e corri alucinado como se fosse um tiro de 500mts!!!, logo Eu e Tuba assumimos as primeiras posições “nosso momento de fama”, várias fotos em primeiro, ai veio uma subida interminável e decidi aliviar, afinal o trecho era de 31km.

O ritmo estava muito forte, a galera não aliviava, a velocidade média era muito forte.

Logo estava no primeiro ponto de encontro com o apoio, como estava muito quente resolvi deixar a mochila para aliviar o peso e melhorar o ritmo e manter a 10km / hora.

Deixei a mochila no carro, tomei um Endurox e peguei apenas uma caramanhola com água e alguns gels.

Fui para a 2a parte do meu trecho que iria até Águas da Prata, quando avistei a cidade que alivio, apertei o ritmo e completei o trecho em 3:19hs.

Cheguei exausto e passei a responsabilidade agora para o Razera, que saiu forte.

Miojo com atum e azeitona, salada de frutas, coca gelada, tudo pronto, Mas, não conseguia comer nada, Tomei outro Endurox, alonguei, hidratei e descansei, só depois consegui comer o macarrão.

2o. Trecho – de Águas da Prata até o Pico do Gavião – Razera

O Razera desde o início disse que o Pico era dele. Obviamente que isso não gerou stress nenhum na equipe, pelo contrário: É todo seu!!!!
A idéia era ele subir o Pico e fazer a troca no topo comigo, eu entraria e faria a descida e iria até Andradas. Como houve mudança na estratégia por causa do mal tempo e chuvas fortes que judiaram da região, os carros de apoio tiveram que fazer outro percurso em alguns trechos, impossibilitando a estratégia inicial de 2hs X 4hs.
Razera correu até o Pico, desceu e me encontrou após o riacho, onde o carro chegava.

Eu (Sandra) entrei nesse trecho.

3o. Trecho – de Andradas à Crisólia, passando pela Serra dos Limas – Sandra/Robinson

O caminho é todo demarcado por: setas amarelas em postes de luz ou plaquinhas oficiais do caminho da fé ou fitas zebradas ou pedaços de papel luminosos e coloridos (pareciam tiquet) que à noite refletiam e mostravam o caminho correto.

Meu maior medo era me perder, então segui o tempo todo procurando as tais setas amarelas… Ou qualquer marcar de tinta amarela que significasse que estava no caminho correto.
Me distraí e esqueci das setas…
- Caracas, as marcações. E agora… Bom, não vi nenhuma bifurcação na trilha então acho que estou certa.
Encontrei um pessoal que fazia manutenção não sei bem no que, na estradinha e perguntei se havia passado gente correndo por ali, SIM havia passado.
Muito bem, então presta atenção agora SANDRA!

Corri mais um pouco e nossa que paisagem linda!!! Nossa que vale!!! É muito bom correr assim. Oba descida, vou socar a bota… Aiii que delícia, é muito bom correr que sensação de liberdade, correr sozinha, sem ninguém e… frio na barriga de novo, não tem ninguém né? To sozinha…
- Caracas, as marcações!!!?? De novo!!!??
Não havia ninguém pra perguntar dessa vez, mas também não teve bifurcação ACHO. Vou indo, só pode ser aqui. Fui e logo vi outros corredores à minha frente andando. Acelerei e passei, hahahaha. Mas, como todo homen, começaram a correr e vieram atrás: Como ser ultrapassado por uma mulher? Me passaram, mas logo passei de novo. Claro, eu estava no revezamento e eles no solo. E era meu 1o Trecho. Se liga cabeção, olha o número na minha identificação que vai saber:

sandra

Corri até Andradas, passei e gritei Senta a Pua!!! Acho que os meninos não estavam esperando eu chegar lá tão cedo, porque quando me viram ficaram super animados. E isso me animou também. Continuei correndo, saí da cidade seguindo as marcações. E dali pra frente não esqueci mais.

Haviam 7 equipes no revezamento, sendo 2 mistas. Nesse trecho estávamos em 3o. indo rumo a Serra dos Limas, quando uma equipe me passou, era a equipe 62.

Antes da subida da Serra encontrei o carro de apoio e o Robinson já estava pronto do lado de fora do carro e me perguntou:

- Quer trocar? Você tem escolha!
- Bom, se tenho escolha eu troco. Uma equipe acabou de passar a gente né?
- É!
- Então soca a bota!

Entramos no carro (Sandra e Razera) e fomos até o topo da Serra dos Limas, onde tinha um Support Point (é um posto de atendimento da organização onde a equipe precisa marcar o tempo de passagem e onde há estrutura com massagistas, água e comida, ambulância, etc).

Estava eu (Robinson) correndo quando olho para a subida e lá estava meu objetivo, no meio da subida, sai forte em silêncio ele estava correndo tranquilamente, eu não podia chamar a atenção a distancia era grande e a subida muito forte, fui me aproximando rapidamente “correndo”, quando ele percebeu minha presença já era tarde, passei “e ai galera” o cara ficou desesperado saiu atrás, mas para minha sorte logo ficou plano e ai foi só alegria media de 12km e abrindo a diferença.

Estávamos (Sandra e Razera) comendo quando o Robinson passou por lá. Caramba, chegou muito rápido e óbvio recuperou nossa posição. Éramos a 3a equipe de novo.

Engolimos o macarrão com molho de carne moida, reabastecemos a água, pegamos macarrão para o Robinson comer no final do trecho e fomos para o próximo ponto de encontro em Crisólia.

4o. Trecho – de Crisólia à Inconfidentes – Razera

Chegamos em Crisólia e o Razera já se preparava para correr seu trecho até Inconfidentes.
Ali o celular pegava e conseguimos receber as mensagens dos Guaranis (Marco e Lilian), avisando que haviam chegado e que estavam em Inconfidentes, nos falamos e eles vieram nos encontrar em Crisólia.

O Robinson chegou e com isso abrimos meia hora da equipe 62 e completamos os primeiros 100km de prova.

Razera, iniciou seu trecho, já era noite. Ele já estava sabendo que íamos demorar um pouco pra sair dali, porque o Robinson estava alongando e precisava comer.
Saímos e o Robinson foi com a Lilian direto para Inconfidentes e eu e o Marco seguidos em outro carro para encontrar o Razera no trecho dele e dar o suporte e talvez até fazer uma troca caso fosse necessário.

Marco e Sandra:
Fomos pelo trecho e cadê o Razera? Nossa como ele correu rápido!!! Será que demoramos tanto tempo assim?
Vamos indo… Mas, cadê ele? Putz, só falta ele ter chegado em Inconfidentes antes de nós.

Razera:
Para chegar em Inconfidentes tinha que passar pela cidade de Ouro Fino. E o Caminho da Fé tem esse nome, porque o objetivo é você passar por todas as Igrejas ‘Matriz’ das cidades existentes no caminho.
Quando ele chegou em Ouro Fino ele perguntou para um rapaz de moto onde ficava a Igreja da cidade, o rapaz explicou um caminho totalmente errado pra ele e como o caminho da fé não tem plano, ele desceu muito até descobrir que não era ali. Voltou tudo numa subida gigante, até encontrar as setas e o caminho correto.

Marco e Sandra:
Chegamos em Inconfidentes e nada do Razera, não encontramos ele no caminho… Voltamos tudo de novo e reiniciamos o trecho olhando pra ver se ele não estava caído em algum canto (hehehe)… Chegamos em Ouro Fino e fizemos o caminho de volta até Inconfidentes… Finalmente o encontramos.
Ele estava um pouco cansado e p.. com informação errada. Fui dirigindo acompanhando e o Marco foi correndo ao lado dele. Começou sua tarefa de ‘pacer’ na prova.
Foram conversando e acho que isso foi muito bom, deu uma animada e logo chegamos na cidade e no Support Point onde faríamos a troca. Com essa perdida a equipe 62 chegou junto e saíram com seu melhor corredor na nossa frente.

5o. Trecho – de Inconfidentes à Borda da Mata – Sandra

Saímos eu (Sandra) e Marco correndo pelo asfalto. Eu tinha a informação que deveria correr 4km e haveria a entrada para a estrada de terra do caminho.
Corremos 4km e cadê a entrada? Cadê a entrada?
Encontramos os apoios na estrada e confirmamos a instrução…
Após procurarem e encontrarem o caminho, lá fomos nós de novo… Voltamos correndo os 4km de novo, a entrada era perto do Support Point.
A distância era a partir da Igreja da cidade e não do ponto de troca. Com isso perdemos mais 1 hora. INFERNO!!!!! INFERNO!!! INFERNO!!!!!!!!
O que era pra ser 20km virou 28km.
Mas, tudo bem, se perder faz parte… Isso não nos abalou.
O duro é se perder num caminho demarcado né??? Hahahaha
Corremos onde dava, não perdemos mais tempo. Nossa que céu lindo estava aquela noite!!!
E como tinha cachorro naquele trecho e como eles latiam…
E como tinha subida aquele trecho.
Fiquei meio maus e quando encontramos uma bica de água, tomei um hidrafit, isso me ajudou e logo voltamos ao ritmo normal.
Chegamos em Borda da Mata, estávamos em 4o de novo. E a equipe 62 com 1 hora na nossa frente.

6o. Trecho – de Borda da Mata à Tocos de Moji – Robinson

Nosso melhor corredor saiu nesse trecho acompanhado do melhor ‘pacer’ que alguém pode ter quando quer socar a bota. Robinson e Marcão saíram alucinados para buscar a equipe.

Nós fomos até Tocos de Moji e aproveitamos para descansar até a chegada do Robinson, e dormimos.
Eles socaram a bota neste trecho e quando olharam no meio de uma subida, lá estava o objetivo: a equipe 62.

O Marcao gritou para o Robinson:
- Calma!!! Calma!!! Calma!!!!
- Calma nada, vamos pegar!
- Então vambora!!!

Socaram a bota, passaram os caras na subida e lenha!!!! Os caras vieram atrás, lógico.

Estávamos dormindo, quando houvimos o grito de guerra:
SENTA A PUAAAAAAAAAAAAAAA!!!!

Nova Equipe e Mario Lacerda - foto Emerson Bisan (na esq) - o Papaléguas

Nova Equipe e Mario Lacerda - foto Emerson Bisan (na esq) - o Papaléguas

Demos um pulo nós e o apoio da equipe 62, ninguém acreditou!!!

Em 17km do trecho, o Robinson tirou 1 hora de diferença e ainda botou mais alguns minutos na frente.

Era o trecho do Razera. Que acordou assustado, abriu a porta do carro e saiu correndo.
Ainda bem que já tinha dormido pronto pra largar.

O Robinson deu as instruções para o Marcão:
- Marcão soca a bota, dá o ritmo para o Razera, não deixa ele aliviar porque os caras vão pra cima.

Marcão saiu para o seu 3o. trecho, encontrou o Razera e ambos foram num ritmo forte.
Logo chegou a equipe 62 e demoraram alguns minutos pra sair.

Nos cumprimentamos começamos a conversar, um dos ‘pacers’ nos pediu um pouco de Endurox. Falou que já tinha feito o Iron, mas nunca tinha corrido mais que 42km na vida e que estava muito cansado. Aliás ele repetiu essa frase várias vezes, em vários momentos.

Demos um pouco pra ele, ele dividiu com a equipe e como o Robinson estava bastante dolorido, ele imediatamente pegou o colchonete e ofereceu um alongamento.

Nasceu ali, um espírito de amizade e competição muito legal, sadio, e de ‘heróis’…

7o. Trecho – de Tocos de Moji à Estiva – Razera

A equipe 62 saiu pra buscar o Razera e o Marco, que já estavam mais à frente.
Os caras corriam muito, nós não sabíamos onde estávamos nos metendo.
Eram todos ultramaratonistas. E um acabava de ser formado, já que foi a primeira vez que ele corria mais que 42km na vida… rs
Foram atrás e encostaram, era uma subida insana e socaram a bota, o Razera não aliviou e socou a bota também. Começaram a subir num ritmo muito forte. O Razera pensou:
- Que p… é essa, vai ser tiro de 50km???
Subiram lado a lado as duas equipes disputando passo a passo e os apoios das 2 equipes torcendo atrás e na frente deles, no esquema ‘Pulo de Sapo’ ou seja, ou carro a de apoio passa pelo atleta e para mais a frente, espera o atleta passar e sai de novo.
Aquilo tava muito divertido. Até que olhamos para o topo da subida e vimos, o carinha da 62 parado no topo da subida, saltitando, aquecendo, esperando para a troca.
Falei pra Lilian, que queria trocar com o Razera, porque era uma descida longa, assim dava tempo dele descansar um pouco e eu (Sandra) já descansada, conseguiria descer bem mais rápido. Mas, que era para ela deixá-lo no pé da próxima subida para trocarmos de novo. Ele sobe muito mais rápido que eu.
O Robinson precisava descansar, e não poderia entrar tínhamos que arriscar.
Arriscamos, a Lilian me deixou no topo da subida ao lado do Papaléguas da 62.
Quando parei ao lado dele, vi que ele tinha uma tatuagem do Papaléguas na panturrilha, ai ai ai… Não poderia ser de uma tartaruguinha??? Bom tatuagem por tatuagem sou mais a minha: tenho um dragão no pé!
Quando Razera chegou junto com o corredor da 62, entramos eu e o Papaléguas pra descer… Foi uma descisa linda, gigante, óbvio que o cara não tem a tatuagem à toa… Tentei não deixar abrir muito, e não abriu. Quando chegamos no final da descida o Razera entrou de novo para fazer mais uma subida infernal. E socou a lenha.

Novamente parei no topo da próxima subida pra descer no lugar dele. Trocamos de novo. A essa altura a Lilian não podia ver uma subida ou uma descida que já dava a ordem da troca. Só no chicote!
Fiz a descida e ele entrou novamente na subida seguinte e depois não trocamos mais, ele foi até o final do trecho pois já estava perto.
A equipe 62 que havia nos passado, foi embora e nós diminuimos o ritmo, afinal ainda faltavam 24km e a Serra de Paraisópolis pela frente. Num total de 39km até a chegada.

8o. Trecho – de Estiva à Consolação – Sandra/Robinson/Razera

Iniciei meu trecho de 24km, o Robinson já havia falado que íamos quebrar esse trecho em 2 partes. Corri a primeira parte e depois entrou o Robinson.
Estávamos em 4o lugar e sozinhos. A Lilian desesperada mandando a gente correr logo, porque na verdade não sabíamos o quanto a equipe que estava em 5o. lugar estava distante de nós.
Juro que tentamos o máximo que conseguíamos. Mas, ali já sentíamos bastante o cansaço.
E as dores pelo corpo. Me lembrei de uma foto (abaixo) que vi numa revista de corrida sobre ultramaratona. Chega uma hora que dói tudo!!! O corpo grita.

gritoQuando o Robinson entrou eu fui com a Lilian até Consolação onde havia outro Support Point e dessa vez se a equipe não marcasse o tempo lá, seria desclassificada.
Imaginamos que haveria comida e eu estava faminta.
Deixamos o Marco e o Razera acompanhando o Robinson, e fomos com o outro carro pra lá.
Chegando na cidade de Consolação em frente a igreja, cruzamos com o apoio da 62, que ficaram pálidos quando nos viram e pior não viram o Robinson.
Perguntamos onde era a barraca da organização e eles nos disseram que era mais a frente.
Passamos por eles e pelos atletas que estavam correndo no trecho e olhando pelo retrovisor vi um dos atletas parar quando passamos, virar para o carro de apoio e abrir os braços em sinal de:
NÃO É POSSÍVEL!!!! Corremos tanto e eles já estão aqui?
Eu a Lilian rimos muito com essa situação e falei pra ela, não vamos contar nada que os meninos estão longe.

Chegamos na barraca mas não tinha barraca e muito menos comida. Só o coitado do PC.
Tadinho tava com fome, demos comida pra ele. Ele todo envergonhado não queria aceitar.
A Lilian fez um lanche maravilhoso de pão, queijo e tomate que devorei e ficamos ali esperando os meninos.
Daqui a pouco veio o carro de apoio da 62, que olhou pra nós, conversou com o PC e voltou para acompanhar os atletas.
Mais um pouco, chega de novo o carro de apoio da 62 e logo atrás os atletas…
Eles nos olhavam, olhavam dentro do carro, com uma cara de espanto total.
Rapidinho trocaram de atleta e perguntaram:
- E vocês???
Nós dissemos:
- Estão vindo aí!
Um da 62 disse:
- É, eles tem um queniano, um queniano desbotado…
Eu disse:
- É ele mesmo que tá correndo agora. Um queniano branco de olho azul.

Foi suficiente para sairem voando dali.

Eu não menti, o Robinson estava no trecho, e estava vindo, apenas omiti que estava longe.

Eu a Lilian rimos muito, e o PC também porque sabia da história toda.

Foi engraçado o desespero deles.

Depois de 40 minutos chegou o Razera correndo e o Robinson no carro, porque acabou sentindo dores no baço e pediu para trocar.

Chegaram e eu saí para o último trecho, agora só faltavam 15km.

9o. Trecho – de Consolação à Paraisópolis – Sandra/Robinson/Razera

O Marco disse que íamos dividir esse trecho em 3, cada um correria 5km e depois todos juntos até a chegada, nos metros finais.

Estranhamente não estava com dor alguma, estava trotando e o Razera me xingando de dentro do carro:
- Sua safada, ficou se polpando e agora corre??? Agora vai fazer tudo até o final!!!
Eu ri muito e respondi, que ninguém mandou vocês brincarem de dar tiros no meio da prova. E se eu conseguir corro tudo até o final sem problemas.
Corri 5km e o Robinson pediu pra entrar.
Ele entrou correu mais 4km e o Razera trocou com ele.
Estávamos todos com muitas dores nesse momento.
Eu com dor na lombar, nas coxas e as pontas dos dedos por causa das descidas.
O Robinson com dor no baço ainda.
O Razera, com dor num músculo chamado iliopsoas e só conseguia andar.
Estavamos num revezamento a cada 1km, 500, 300, 100 mts…
O Razera subia, eu descia e o Robinson ia no plano.
Não sabíamos mais, se era pior correr ou ficar parado, um minuto parado as pernas travavam.

Finalmente avistamos a cidade e a Igreja Matriz. A linha de chegada estava perto.
Mandei uma mensagem para o Marcinho dizendo: Faltam 2km!!!

A emoção tomou conta de todos nós, nos juntamos e fizemos os metros finais.
Correndo lado a lado e de mãos dadas cruzamos a linha de chegada em frente a Igreja Matriz de Paraisópolis em 4o lugar => 217km com 30h, 30min.

Na chegada a Eliana (mulher do Mario Lacerda – organizador da prova) esperava todos os corredores, e pra todos ela segurava a faixa de chegada, abraçava e comemorava com a mesma alegria e entusiasmo desde o 1o até o último competidor.

Um exemplo muito bonito de consideração com aqueles que mesmo não sendo o 1o. colocado, se esforçou, se dedicou, se superou pra atingir seu objetivo pessoal, mesmo que fosse o de simplesmente terminar a prova, todos são vencedores, como dizem:
O corredor é um herói de si mesmo!

Os organizadores de provas de aventura deveriam seguir esse exemplo, é muito chato você terminar uma prova e não ter ninguém lá te esperando. Nem pelo menos pra tirar uma foto sua, ou dizer: Parabéns, por mais esse desafio.

Nos abraçamos, comemoramos muito ao lado dos nossos anjos da guarda Marco e Lilian e ao lado também dos nossos novos amigos: Equipe 62.

Equipe 62, todos são diabéticos. E fazem um trabalho muito interessante sobre o diabetes e o esporte. Equipe 62 chama-se na verdade Nova Equipe Diabetes e Desportos.

Aí conversamos, cada um contou sua história, eles contaram do desespero deles, quando nos viram, nós contamos da nossa brincadeira. E rimos muito.

Eles disseram que no último trecho ainda, pra ajudar o carro de apoio deles empacou numa subida e não ia… Eles desesperados desceram do carro e começaram a empurrar, sempre com medo do ‘Queni’ apelido que o Robinson ganhou nessa prova, chegar! rs…

No domingo as 12:30hs o Mario Lacerda estava lá, pontualmente como tudo que ocorreu na prova dele, para entregar as medalhas e as camisetas de finished.

Chamou equipe por equipe do revezamento, cumprimentou a todos, abraçou, tirou fotos com uma simplicidade absurda. Ele e a Eliana, são pessoas maravilhosas, que organizam essa prova por amor ao esporte.

É um mundo diferente. Pessoas muito diferentes das de aventura.
São pessoas muito simples, muito legais, sem frescuras, é outro mundo. Adorei conhecer e passar por essa experiência. Ano que vem to de volta. Afinal é o que está escrito na medalha…. Isso foi só o início, O INÍCIO DA JORNADA.

medalha

Agradecimentos:

A Selva Aventura – Marcinho e Caco – pelo treino, atenção, carinho e dedicação aos alunos e aos objetivos pessoais de cada um.
Galera a planilha funciona podem acreditar!!!

Aos amigos Gesi e Tony – pela base na Aldeia da Serra, viabilizando nosso treino mais importante e ao macarrão que tava ótimo, faz mais da próxima viu!!

Aos amigos que torceram por nós, nos mandaram mensagens de apoio e de carinho durante toda a prova: ISSO FAZ DIFERENÇA!!!

A nossa família linda (Raquel, Vini, Jr e Nath), que sempre entende nossas loucuras e nos apoia.

E finalmente, ao Marco e a Lilian: não temos palavras pra descrever o que vocês fizeram por nós. Seremos eternamente gratos. E na verdade o que fica disso é uma eterna amizade.

Bjs e Abraços,
Sandra, Robinson e Razera
Equipe Senta a Pua

16 comentários até agora

16 Respostas para “Ultramaratona – O Desafio da Fé”

  1. Sniff!! Vocês mentiram para mim!! Até o dia que me ligaram ainda não tinham apoio!! Acabei não fechando o evento e nem dei apoio à vocês…..MAIS DEUS SABE O QUE FAZ, VOCÊS não poderiam TER tido APOIO MELHOR DO QUE DESSES DOIS (LILIAN E MARCO – “”paces”")!!
    Parabéns por mais esse desafiosuperação…parabéns..parabéns…. que orgulho mesmo Sannn/Quenni (a d o r e i – rs)/Razera.
    beijos e abraços de ursa
    QQ

    29 jan 2009 - 10:17

  2. Becker

    Animal ….. conhecendo vcs…tinha certeza desse resultado….beijos e parabéns
    Becker

    29 jan 2009 - 11:10

  3. Sandra, Robinson e Razera.

    Tem coisas que fazemos que não podemos explicar, somos movidos pelos prazeres da vida, e quando se vê…. puf!!!!… estamos lá, na companhia de amigos, fazendo o que realmente gostamos…..
    É isso ai galera, mandaram super bem, arrebentaram tudo… e isso eu falo porque estava lá vendo tudo isso ai bem de pertinho….
    PARABÉNS, comemorem, gritem, aproveitem esta alegria e é lógico… beba com moderação… hehehehe
    Bjs

    29 jan 2009 - 11:57

  4. Dante

    Parabéns a todos! Vcs merecem! Saudades de todos.
    Abraços

    29 jan 2009 - 12:07

  5. Nossa!!! Adorei a historia.
    Realmente é emocionante participar de eventos tao grandiosos onde o prazer esta em correr e nao ganhar. Foi divertido a parte dos ultimos 50km. ;-)

    Bjos e abs

    Marcelo Bellon
    Equipe 62: Nova Equipe / Diabetes & Desportes

    PS: O meu relato ainda esta no forno mas deve sair ate o inicio da proxima semana pois ainda temos o Cruce de los Andes para correr na semana que vem (12 x 42k)

    29 jan 2009 - 15:52

  6. Esqueci!

    Obrigado pelo Endurox e pelo espirito esportivo. Aquela competicao saudavel fez a gente tirar o melhor que tinhamos nas pernas para correr.

    :-)

    29 jan 2009 - 15:54

  7. Belo

    AnimAAAALLLL … parabéns

    29 jan 2009 - 19:03

  8. Evelyn

    Parabénnnnss!!! Essa prova é bem famosa entre os ultra-maratonistas por ser bem difícil!!!! Demais, mandaram muito bem!!
    Dá até vontade de treinar depois de ler esse relato!! Parabéns San!
    Bjs
    Evelyn

    29 jan 2009 - 20:46

  9. mari dias

    parabens parabens parabens parabens parabens!
    5x parabens… aos 3 corredores e aos dois apoios!
    orgulho demais de vcs… sintam o mesmo, vcs conseguiram!

    lendo o relato me deu vontade de estar lá… mas saibam que todos estavam na mandando muito mais que energia positiva!
    nessas horas somos uma unica familia!

    um beijo enorme em vcs.
    e agora o “curriculo” esta bem maior… 217km a mais… :)

    ah, e espero que as dores já tenham passado.

    30 jan 2009 - 5:28

  10. Vagner Juliano

    Fala Pessoas…
    Ainda hoje sinto vestígios de dor da prova…
    Não tenho palavras para descrever o quanto foi
    emocionante estar nessa prova. Acho que me tornei ultramaratonista, como vocês, e de quebra fizemos a
    maior disputa entre posições da história…rs
    Essa pitada de emoção no finzinho, só faltava uns 100k,
    fez com que crescemos como atleta, pessoas e como equipe também… Em breve vou enviar meu relato da prova, mas queria falar que vocês têm um lugar especial
    guardado no meu coração, pela esportividade, amizade e pelo endurox é claro…rs
    Obrigado….
    Até Breve,
    Vagner Juliano

    30 jan 2009 - 13:11

  11. ANDRE STEFANINI

    Aêeeeeeee Sandra, Robinson “Queni-White”, e Razera! Vcs detonaram mesmo! Dedicação, Paixão, Determinação, Equipe, Colaboração e principalmente esse Espírito Vencedor! Isso tudo vocês mostraram com muita competência!
    Parabéns!
    Grande abraço,
    E que venham as próximas!
    ANDRESSSSAO

    PS: Esqueceu de agradecer ao GPS…. opssss, num precisa agradecer, mesmo com ele vcs se perderam! que beleza! Robinson, vc sentiu falta de um mapa 1:50.000?

    30 jan 2009 - 16:06

  12. Robinson

    Andressão,

    O negocio é seguir as marcações e não ficar pedindo informação “né Razera”, você tem que ter fé e seguir as setas amarelas que da certo ! se não DEUS castiga com uns km a mais e com subida…

    Mas de qualquer forma valeu a boa intenção em emprestar o GPS, ele caiu dentro do rio mas acho que esta funcionando.

    Abs.

    02 fev 2009 - 18:50

  13. Christian Guariglia

    Parabêns por mais um desafio alcaçado.

    Fiz com o Selva o pedal do caminho da fé. É um sobe e desce infernal, muito calor de dia, frio à noite. E imagina isso tudo a pé.

    São um bando de loucos!!! rsrsrsrs

    Abrs.

    03 fev 2009 - 13:00

  14. Uauuuuuuuuuuuuuuuuu….
    Que relato maravilhoso…….aprendi muito lendo o seu relato.
    Juntos eu e Eliana demos muitas risadas durante o texto….muito engraçado.
    Interessante o “tom” de uma equipe de aventura durante uma ultramaratona…
    Relutamos muito em abrir “pra eles” da aventura, pois sabemos o quanto “eles” são competitivos e tinhamos duvidas se “eles” entrariam no espirito da Br135….

    Haaaaaaaaaaaaa…que maravilha de relato…..pudemos ver e perceber que a 62 e a 64, entraram no espirito….competiram e se divertiram e mais importante se mantiveram sorrindo….

    O Caminho da Fé falou mais forte……..

    Agradeço as bonitas palavras de voces e vcs acertaram…somos assim mesmo,….sem frescura, simples e com uma grande vontade de fazer tudo certo, justo e com o espirito esportivo.

    Obrigado pela participação…

    aguardamos vcs novamente…….alguem vem solo? :-)

    A Eliana manda um beijao pra vcs…Sandra, Razera e Robson, Marco e Lilian

    Sentimo-nos honrados em tê-los conhcido Senta Pua….

    Saudações Peregrinas….

    Mario e Eliana.

    03 fev 2009 - 18:51

  15. Sandra

    Se alguém vai solo em 2010??
    Hahahaha, acho que todos!!!
    Inclusive apoios.

    Solo ou revezamento, o fato é que estaremos presentas em 2010.

    Bjs,
    Sandra
    Senta a Pua

    04 fev 2009 - 8:29

  16. Agnaldo

    Marcio Razera, Sandra Simoes e Robinson Simoes,

    Já li 3 vezes e, todas as vezes, fico emocionado lembrando como foi maravilhosa a prova e a amizade que se foi construindo naquelas pirambeiras…hora subindo, hora descendo no Caminho da Fé. E pôe fé nisso.

    Fui apenas PACE da equipe 62, morrendo de medo
    de não conseguir acompanhar os ultras e ironmans
    da equipe…acabei rodando quase 70km.

    O que salvou a equipe foi a diversão, o tanto de risada durante todo o percurso. Só virou competição depois de 160km de prova, mas foi tão saudável e divertido que não houve o estress sobre os ombros como em outras competições.

    Foi um aprendizado correr e fazer apoio para uma equipe de diabéticos, anotar as insulinas, as glicemias, o que bebeu e o que comeu…uma verdadeira aula.

    Fiquei sonhando correndo tudo sozinho por vários dias depois da prova…acho que isso contamina ou estou pirando. rsrs

    Bom, parabéns para vocês! Vou lembra para sempre de tudo isso.

    Beijos,

    PS. Ainda queria saber o que é esse Enduroxx que todos falam.

    18 fev 2009 - 11:25

Trackback URI | RSS Comentários

Deixe seu comentário