Chauás Pilões: Brincadeira de gigantes
Prova rápida, somente por trilhas turísticas e navegação média era o que a organização da Chauás Itutinga Pilões anunciava para a etapa de 300 km, ligando Cubatão à Bertioga, no litoral de São Paulo. Sem treinos específicos e focados em outras provas, que não corridas de aventura, pensamos: ‘Vamos lá, ver no que vai dar!” e fomos. Lilian Araujo, Marco Antonio, Robinson Simões e Sidney Togumi, quatro malucos da equipe Guaranis, mas que muitos preferem chamar de Guaranás.
Pra não sair da rotina, a pré-prova foi como sempre, com muita correria e pouquíssimas horas de sono. O Toga tinha conseguido sair mais cedo de São Paulo e adiantou a checagem de equipamentos, mapas e entrega das bikes. Os três peões que ficaram trabalhando até mais tarde foram direto pro Guarujá, onde ficamos hospedados na casa do Chris Guariglia, da Guepardos, que iria para a prova em dupla com o Fernando Lordelo. É preciso coragem pra enfrentar uma Chauás longa em dupla. Eu passo!
Madrugamos no sábado, café da manhã rápido e seguimos para o Forte de Bertioga para esperar o ônibus, que nos levaria para a sede do parque Itutinga Pilões, no meio da Imigrantes. Espera, espera e espera, num tempo suficiente para reencontrar alguns amigos de anos, como o Jean da Caverá, integrando a equipe Papaventuras/Cosanostra, e conhecer outros atletas que vinham de longe especialmente para a prova.
Papo vai, papo vem e nada do ônibus. Depois de mais de hora de espera, finalmente embarcamos, carregados com nossas mochilas, mais o saco de reabastecimento da bike e com nosso segundo café da manhã na bagagem, com lanchinhos e frutas fresquinhas.
Tudo pronto e nada da prova começar. O Robinson não agüentava mais ir ao banheiro de tanta ansiedade. Agradecimentos infinitos e finalmente soou a famosa buzina do tio Lucas.
Largamos juntos com as equipes da prova de 45 km por uma trilha, seguida por uma bela e dura costeira, com muitas pedras soltas. Saímos do rio grudados no atleta mirim Pedro Boscarioli. Se meu objetivo inicial era ir até onde dava, agora era pelo menos voltar para o ponto da largada na frente dele. O garoto corria no nosso ritmo e nada dele cansar. “Meu pai!! Estamos velhos demais. Não é possível”, eu pensava, até que finalmente ele diminuiu e nós passamos. Ufa!
Seguimos correndo por toda a trilha, esta sim turística, que variava entre costeira, single track e estradinhas. Mais pra frente, a trilha entrou na mata fechada. Passamos por várias ruínas, paramos para algumas fotinhos e seguimos num ritmo bom até próximo ao PC que descansava na rede. Antes dele, o Marco e o Robinson entraram numa trilha em direção ao rio e eu fui por trás de uma ruína, enquanto o Toga ficou parado esperando cada um voltar com alguma notícia do PC. Fui, vi que a trilha seguia para onde queríamos e voltei correndo em direção ao rio para avisá-los. Chegando ao rio, não encontrei ninguém, só na volta um monte de equipes que me seguiu até lá. “Caracas, perdi minha equipe”. Um deles falou : “acho que estão lá atrás”. Corri até a ruína e nada. Comecei a gritar: “Má, Má, Má” e nada. Correndo, gritando e nada. As equipes me acompanharam, como se eu fosse o carro madrinha mostrando o caminho. Lááááááá na frente estavam os três desesperados com meus gritos, achando que eu estava na frente deles e ainda cantando a bola para as equipes atrás. Eu desesperada e
eles me xingando, até que finalmente perceberam que eu estava atrás e não na frente.
Ai, que raiva! O Robinson voltou pra me encontrar rindo e eu só dizendo: “Vocês me largaram na trilha. Como podem esquecer de mim?”. Draminha básico e seguimos em pelotão. Os meninos perceberam que tinham passado o ponto da subida e rapidamente voltamos até o PC da rede.
Uma subida animal, no vara mato, com desnível de uns 400 metros em menos de 2km de distância. Trilha turística??? Delícia. Vamos lá! No fim da quase escalada, saímos no trilho de trem e, depois de uma Coca-Cola em boa hora, corremos por alguns quilômetros pelo trilho ativo. Passamos por alguns túneis, atentos a qualquer sinal de trem, desviando dos buracos e de alguns ferros que pareciam degraus. Depois soubemos que a Tati da Aroeira tropeçou em um deles e machucou feio um dos tornozelos.

Assinamos o PC, que avisou: “a entrada da trilha é naquele matinho”. Matinho? Só tinha mato ao redor. “Bom, vamos procurar”. Achamos rápido e começamos a descer até quase ao nível do mar, de volta para o local da largada. Descida insana, em single track aberto. Na base, voltamos pra corrida até as bikes e local de chegada da 45km.
Foi ótimo esse retorno, pois encontramos alguns amigos, como o Geraldinho e o Xiquito, que tinham feito a solo e nos deram uma boa dose de ânimo, torcendo e agitando a nossa lenta transição.
Saímos para o terrível pedal de 25 km de subida da serra pela estrada de manutenção da Ecovias. Como o Robinson e eu praticamente não estávamos treinando bike, sofremos muito nesse trecho. Ele suava assustadoramente. Parecia que tinha pulado num rio. E eu comecei a sentir uma dor forte próxima ao joelho e pedi pra tomar um remédio. Tomei e seguimos subindo muito lentos, com apenas uma paradinha para mais uma foto, com uma linda cachoeira ao fundo.

A navegação foi moleza na serra, com soldados do exército indicando o caminho certo a cada cruzamento. Infelizmente, o último deles se empolgou e mandou que seguíssemos até a Imigrantes, pedalando pela rodovia até o Rancho da Pamonha e lá encontraríamos a trilha. Ok! Mapa no bolso, seguimos as orientações e chegamos ao rancho, que tinha sido demolido. Apenas uma barraquinha, vendendo as famosas pamonhas da subida da serra. “Cruzes, as equipes do Sul vão se atrapalhar aqui, pois vão procurar a loja e só vão encontrar ruínas”, comentamos. Perdemos um bom tempo procurando a trilha, perguntando para seguranças e caminhoneiros sobre a possível trilha, mas nenhuma informação válida. Até que finalmente fizemos a pergunta certa: “Passou muita gente, vestidos como nós por aqui?” Resposta: “Não passou ninguém”.
Enfim caiu a ficha de que a informação do soldado estava errada. Voltamos na contra-mão pela rodovia, já no escuro, com faróis acesos. Buzinadas na cabeça, conseguimos retornar inteiros ao ponto que tínhamos noção no mapa. Achamos a trilha e, de novo, um monte de equipes veio com a gente. Single track lento e lamacento, quase impedalável. Finalmente chegamos ao PC do Djalma. “Prova rápida e trilhas turísticas”, falei pro Lucas que estava no PC. Demos várias risadas, enquanto trocávamos as sapatilhas pelo tênis.
Cada equipe seguiu num ritmo próprio no trekking e nós num excelente papo com a equipe Xingu. Uns 4km de asfalto até o próximo PC, passamos por baixo de uma ponte para atravessar a rodovia e mais 4km de volta até a entrada da trilha. No caminho um caminhão da Ecovias para do nosso lado e o motorista fala preocupado: “Olha, não andem por esses matos aí não, porque tem onça!”. “Ta bom, moço. Não vamos andar não. Obrigada!”. Mal sabia ele por onde já tínhamos passado e por onde ainda íamos passar. Mas foi muito interessante a preocupação dele com um monte de esquisitos, sujos, com capacete e mochila no meio do nada, naquele começo da noite nublada e com neblina.
Na trilha/charco formamos um big pelotão de novo até o PC do remo. A galera saiu em disparada para remar e nós paramos pra jantar. Sentamos nos ducks, sacamos nossas comidas liofilizadas e comemos arroz, com batata e milho. De sobremesa doce de leite.
Entramos no remo, comigo e o Marco na canadense e os meninos no duck. A neblina tinha subido um pouco, ajudando na navegação. No caminho, a neblina baixou algumas vezes e não conseguíamos nem sequer ver um ao outro. Apesar disso, terminamos a remada da Billings em menos de 2h20.
Já de madrugada, os meninos estavam bem molhados por causa do duck. Quase congelando, o Robinson mal conseguiu sair da embarcação. Cuidamos dos pés, eles se agasalharam e já estávamos prontos para sair quando a mulher do Doc Ive nos avisou sobre um PF de um botequinho com videokê mais à frente. Hummmmm!! Já que íamos entrar num trekking ferrado e nossa comida que deveria durar até durante a bike já estava meio escassa, resolvemos comer de novo. Alface, Arroz, feijão e frango frito, o cardápio parecia apetitoso, se não fosse pelo arroz de uns 4 dias atrás e pelo feijão razoável, mas já frio. Acho que não estávamos com tanta fome assim. Perguntamos para o garçom se tinha café ou qualquer coisa que esquentasse e que não fosse cachaça. Depois do ‘não’, nos contentamos com o PF, enquanto conversávamos com o Fran e com os irmãos Metrilhas. Nesse meio tempo, o Robinson vira pra mim e fala: “o que aquele cara (o garçom) está bebendo?”. Olhei e vi que o que o cidadão, pouco comovido com nossa situação de quase hipotermia, bebia era café. A fumaça saía do copo, enquanto olhávamos com raiva para ele.
Voltamos para a prova num ritmo bom de caminhada, até que o Toga segurou na mochila do Marco pra poder se orientar, pois não conseguia mais ficar com os olhos abertos. Ele tentou despertar correndo na nossa frente. Poucos metros depois vimos a lanterna dele piscando como estrobo. Achamos que ele estava tentando dar sinal para nós e os meninos respondiam com piscas também. Até que chegamos nele e o bicho estava literalmente jogado no acostamento, cochilando, parecendo um morto no meio do nada naquela madrugada cheia de neblina.
Seguimos com o Robinson ainda congelando e o Marco começando a andar em zigue-zague no acostamento de uns 6km até a entrada do parque da Serra do Mar. Assinamos o PC e aproveitamos a cobertura da guarita para uma soneca. Mal tirei a mochila das costas e o Robinson já estava roncando. O Má e eu rimos com a situação, nos agasalhamos e deitamos também. Uma hora depois eu estava congelando e acordada. Chamei os meninos e pedi para seguirmos, pois já não estava agüentando o frio. Enquanto nos recompúnhamos, a Largatixa, equipe que liderava a prova, chegava de volta na bike. Um dos atletas estava desesperado para um número 2, mas o carinha da guarita tinha saído a menos de 5 minutos, trancando a porta. Apesar do desespero, os companheiros de equipe não deixaram ele parar e seguiram pedalando, com ele gritando que realmente precisava ir ao banheiro. Coitado!
Voltamos pra caminhada, ainda no escuro, e eu com uma baita dor no pé. Não tinha torcido nem nada, mas uma dor chatinha me incomodava. Andamos bem até a entrada da trilha “turística”, que mais parecia um paredão. Já tinha amanhecido quando começamos a descida interminável. Nossa progressão foi lenta, pois a trilha era estreita, escorregadia, cheia de pedras soltas e molhadas.
Chegamos a uma cachoeira magnífica, com uns 70 metros de altura e águas volumosas. Na base, várias corredeiras gigantes faziam com que redobrássemos a atenção para não ficarmos tão perto da água. Depois de algumas horas completamente voltados para a trilha, paramos para comer. O Toga abriu uma Coca-Cola, deu um gole e eu outro, mas, num descuido meu, a latinha cheia rolou abismo abaixo, sem chance de resgate. Eles me olharam com olhos de lince e, acho que por pouco, eu é que não fui arremessada barranco abaixo. Mais pra frente, a vontade escondida deles se materializou, quando escorreguei num barranco de costas. O Toga tentou me segurar, escorregou também e foi meio de cara junto comigo pra baixo. Só paramos, quando consegui apoiar um pé numa árvore e ele se prendeu em alguma raiz. Passado o susto, demos algumas risadas e escalamos morro acima de volta pra trilha. Depois da prova, encontramos o Repolho com a mão fraturada por um escorregão nessa mesma trilha.

Tinha começado a chover, quando o Marco percebeu que, apesar do volume d´água da cachoeira, o rio que estávamos acompanhando não era o rio largo da carta. Estávamos mais pra atrás de onde achávamos, portanto, tínhamos que ficar atentos quando o rio virasse para a direita. Algum tempo depois, finalmente a trilha virou. Cruzamos um morro pra cima e a trilha ficou mais larga. O azimute estava perfeitamente correto. Como durante toda a prova ficamos com pouca água, até então mal tínhamos conseguido suplementar. Comida escassa e quase zero de suplemento não combinam. Com a trilha chegando ao rio mais calmo, pudemos pegar água e tomar alguns pozinhos que a seco não desceriam. Recuperados, tentamos achar a continuidade da trilha e nada. Estranho, como uma trilha aberta acabaria no nada? Alguns minutos perdidos, até que o Marco olhou para o outro lado do rio e viu a sequência da trilha, quase uma avenida. Atravessamos e, alguns metros à frente, saímos numa estrada aberta, com pessoas jogando bola num campo enorme, churrasqueiras, bancos e mesas para piquenique. Era o parque de Cubatão. Finalmente! Incomodado pela sujeira de tanto se arrastar pelas trilhas, o Robinson aproveitou uma bica para se lavar, rendendo muitas risadas e, claro, fotinho básica. Depois do banho, continuamos pelo asfalto. Com meu pé doendo mais no plano do que no desnível, fiquei mais atrás, porém logo chegamos ao PC onde pegaríamos as bikes, na base da Serra do Mar, em Cubatão.
O Toga me perguntou se daria pra continuar, eu disse que achava que dava. Eu e o Robinson, que já estava com dor no joelho desde a primeira bike, entramos na fila de atendimento médico. Na nossa vez, explicamos nossas dores e o Doc Ive disse que cada um estava com uma tendinite ferrada. O Ró perguntou se não tinha algum remédio potente pra ajudar, mas o médico disse pra tomarmos os remédios do nosso kit. Como já tínhamos tomado, perguntei se não tinha uma injeção ou coisa assim pra reforçar. Não tinha. Perguntei se a dor poderia resultar numa fratura por stress. O Doc afirmou que não, então virei pro Toga e disse que poderíamos continuar. Mas a dor do Ró era pior que a minha, era insuportável. O Toga disse pra ele dar uma volta na bike ali mesmo e testar a dor. Piorou. Já contando com o corte, faltavam 140 km de bike, para os lados de Paranapiacaba, mais uns 25km de trekking, descendo a serra de novo, e um remo final. Estávamos quase sem comida e se subíssemos a serra novamente, teríamos mais dificuldades para pedir ajuda se precisássemos. O Ró ainda disse para continuarmos nós três, mas, conscientes, calculamos que, com a chuva e sem comida terminaríamos a prova muito tempo depois do tempo limite. Decidimos parar. Sem stress e totalmente integrados como equipe. Fomos até onde deu, num ritmo bom e nos divertindo muito. Algumas lembranças ficaram nas fotos, outras só nas nossas cabeças.
Pernas moles!!!!!!
rs…
Bjs,
Sandra
08 set 2009 - 15:05
Animal o relato…como sempre…bjs
08 set 2009 - 17:14
Éhhhhhh….. norriga… água no umbigo, sinal de perigo… kkkkkk
08 set 2009 - 17:44
Ahh Li , é normal, eles sempre esquecem a menina…rs
Eu achando que eles tinham parado com essas coisas…
hehehe
PARABENS!!!!!!!!!!!!!
MUITO LEGAL!!!
BJS
09 set 2009 - 13:31
Liiiiiiiii… eu dei mta risada no seu depoimento!!! Pelo relato, a prova de vcs foi 10!!! A parte mais engraçada foi “os olhos de lince”… hahahhah imagino!!!
Bjs queridona.
Má.
09 set 2009 - 16:07
NEAF na cabeça…
10 set 2009 - 13:31
Parabéns pela prova e pelo relato, que ficou SHOW! Também morri de rir com os “olhos de lince”; descrição mais perfeita da cena, impossivel!
Bons treinos e nos vemos na próxima.
Bjão!
14 set 2009 - 13:02
Fala Dupla!!!
Como pode esses caras te esquecerem. rsrsrsrs
Pelo menos eu nunca te esqueci nas provas que fizemos juntos. hahahahaaha
Com relação a prova, o Lucas e o Fran tinham razão: Prova rápida (para desistir) e trilhas turísticas (hahaha).
Fiquei sabendo que a trilha que ligava o interligação até a represa, o Fran tentou duas vezes, durante o dia, e não conseguiu. Imagine só, a gente à noite e com neblina. Brincadeira!!!! Ele só conseguiu qdo pediu para um pescador local mostrar a trilha. Assim é fácil, né.
O “Santo” deles é muito forte, pois ainda não aconteceu nada de mais sério nas provas da Chauás (ainda!!!).
Bjs.
17 set 2009 - 11:21