Nike SP-RJ: segundo dia
Michael e Márcia saíram no primeiro trecho do dia, no escuro, mas super animados. É engraçado lembrar como todos estavam 100% focados na prova. O Michael até tinha levado uma pilha de revistas, achando que ficaríamos de bode, sem ter o que fazer enquanto alguém corria. Puro engano.
Literalmente tudo era muito corrido. Os trechos eram sempre relativamente curtos, variando entre 5km a 10km, ou seja, era um tiro correndo e outro dirigindo pra não perder a troca. Além disso, os próprios atletas eram os apoios/anjos-da-guarda. Quando um chegava da corrida, um sempre ia recepcioná-lo, enquanto outro pegava a mochila do que estava correndo, outro ajudava a preparar os suplementos e outro fornecia água e Gatorade. Apesar da loucura, parecia que estávamos ligados no automático. Íamos revezando naturalmente, sem que ninguém precisasse dar ordens. Às vezes alguém precisava descansar e outro automaticamente assumia o papel de apoio. Sincronia total.
No segundo dia, entrei pra correr pela primeira vez por volta das 7h30, debaixo de uma chuva impressionante. Aquecimento debaixo da garoa na praia de Maranduba, em Ubatuba, até a chegada da Sirlei, muito rápida e resistente, vinha a poucos metros de distância de um corredor concorrente. Peguei a pulseira e saí correndo ao lado do capitão Furusho. Era mais um trecho duplo, instituído pela organização para compensar os trechos de deslocamento de carro.
Logo nos primeiros metros as duas meninas da outra equipe encostaram. Uma tentou acompanhar o capitão, que logo se distanciou de nós. A outra tentou me jogar para o canto da rodovia, onde as poças de água já davam na canela. Passei por dentro de uma poça e logo fiquei à esquerda dela. Enquanto a primeira delas se distanciava tentando encostar no capitão, nós duas ficamos atrás, forçando pra ver quem chegava primeiro. Eu estava me sentindo ótima, aquecida, curtindo até aquela mega chuva e pensando que finalmente eu estava entrando na prova. Bingo! Ela quebrou e eu mantive meu ritmo até a chegada inesperada. Descobri que não tenho a menor noção de distância. Ou eu achava que estava chegando e estava longe ou eu achava que estava longe e logo aparecia o tapete da transição. Enfim, fato que cheguei alguns minutos na frente da cidadã, feliz da vida e pronta para quantos trechos mais aparecessem. Nos trocamos debaixo de uma área coberta de uma lojinha, entramos no carro e seguimos com a rotina suplemento, água e Gatorade. Além disso, tínhamos no carro lanches de queijo, peito de peru ou blaquet de frango, castanhas, uvas passas, milhões de barrinhas e biscoitos de cereal quase intocados até o último dia e bisnagas com Nutella, que só descobrimos no segundo dia.
Pouco mais de uma hora depois da minha corrida resolvi comer um dos lanches. Não me animei muito com ele e acabei passando para o Dunga, que deu uma mordida e logo um fim nele. Estávamos num trecho de troca Michael para Gabi, quando o Felipe, nosso fisioterapeuta master 10, precisou vomitar. Ele estava o dia todo enjoado e vomitando. Já estava pálido.
A entrada da Gabi aconteceu no pé de uma serra gigantesca de asfalto, com curvas que falsamente indicavam o término da subida. Os carros seguiam pelo mesmo caminho estreito, dividindo espaço com atletas e motos. Cruzamos com alguns deles caminhando, até chegarmos a outro que impressionantemente corria como se estivesse no plano. Incrível a habilidade dele na subida. Demoramos muito para conseguir passá-lo. Só para lembrar: estávamos na Van. Como tudo que sobe tem que descer, logo ele nos passou (na Van), despencando morro abaixo, agora na estrada de terra, cheia de pedras e lama. “Nossa!!!! Olha ele aí!!!”
Aguardávamos a Gabi, enquanto o Daniel aquecia. Ele estava com muita dor nas panturrilhas, agredidas pela descida da Serra do Mar no dia anterior. Um exame havia detectado nível 4 de lesão, o que significava, pelo o que ele nos informou, o limite entre continuar e sair da prova. Como ele estava decidido a continuar, o Felipe havia aplicado faixas de compressão para tentar evitar que a lesão se agravasse. Com a chuva contínua e a lesão, o Daniel tentou aquecer muito tempo antes do previsto para a chegada da Gabi. Talvez por isso, quando ela chegou –antes do esperado -, ele estava na direção oposta ao PC de troca. Desespero total pelos quase cinco minutos perdidos. Pelo que contou, ela havia despencado morro abaixo, provavelmente em ritmo muito parecido ao que vimos minutos antes. Ela também estava com bandagens aplicadas pelo Felipe, mas nos tornozelos, o que lhe deu segurança para descer voando. Resultado: foi eleita a ‘Rainha da Montanha’, um reconhecimento estipulado pela organização para O e A atleta que fizessem esse trecho no menor tempo. Mas isso só soubemos no dia seguinte.
Seguindo para a próxima transição, avistamos o Daniel andando no plano. Ele estava com uma cara péssima, de muita dor. O susto foi geral.Como era proibido aos carros darem apoio no meio do trecho, não pudemos parar. Várias ideias discutidas, questionamentos para a organização se poderíamos trocar o atleta em situação grave, até que recebemos uma informação de outra equipe de que o Daniel estava sofrendo, mas que continuava seguindo rumo ao PC.
Daí pra frente os imprevistos precisaram ser administrados ao mesmo tempo que a corrida seguia. O Daniel chegou completamente atordoado, tanto que passou ida e volta no tapete de registro do tempo. Não sabíamos se isso poderia desclassificar a equipe, o que, naquele momento, era a menor das preocupações. Com o Felipe já verde de tanto passar mal, a equipe ficou responsável por cuidar das pernas do Daniel, retirando as faixas, aplicando Biofenac e gelo. A equipe médica já tinha sido avisada, mas estava longe e demoraria algum tempo para cruzar com a nossa equipe. A pressão aumentou quando ninguém conseguia contato com o Rafael Campos, nosso atleta reserva, que só chegaria no período da tarde.
Não sei porque, mas também foi nessa transição que comecei a ficar enjoada. Não bastasse o Daniel fora da prova, o Felipe impossibilitado de auxiliar a equipe, agora mais essa. Seguimos até Itamambuca, onde o enjoo aumentou. Avisei a todos. Já em Promirim, desci do carro e tomei a Tônica que havia comprado para o Felipe, enquanto o médico atendia o Daniel e a enfermeira o Felipe. A bebida já estava quente, mas ajudou a aliviar a sensação de mal estar. Perguntei para o médico se ele tinha Plasil e ele disse que só na veia. Tomei e voltamos para a Van, quando do nada surge um táxi na nossa frente. Era o Rafael, para o alívio de todos. Felipe e Daniel entraram no táxi e seguiram para Angra dos Reis, onde seria nossa parada do dia.
A partir daí, o Rafael assumiu os trechos do Daniel e praticamente todos os outros já previstos para ele correr. Ele corria, suplementava, entrava no carro, corria de novo, suplementava, entrava no carro de novo para o próximo trecho. Isso porque havia saído de madrugada, de Caldas Novas, onde estava trabalhando, direto para a prova e poucos dias depois de passar por uma semana de infecção intestinal.
O meu trecho seguinte também era duplo, com o Rafael. Pouco mais de 6km de subida, na divisa São Paulo / Rio de Janeiro. Esse trecho eu conhecia, de carro, sabia que era lindo. Mas como o Rafael é praticamente um caiçara de Ubatuba, ele me deu algumas dicas sobre a subida: “É longa, quando você achar que acabou ela começa de novo. Mas dá para colocar um ritmo e seguir nele”. Pensei: “O meu ou o seu ritmo?” rs. Graças à Nike, os trechos duplos não significavam em dupla. O atleta mais rápido podia ir na frente, depois os tempos dos dois eram somados. Sorte minha e azar o dele. Coitado! Acho que nunca deve ter registrado um tempo tão ruim na vida dele. A essa altura eu já estava esverdeada e usado o banheiro de uma casinha mega simples, de chão de cimento e com um lençol no lugar da porta do banheiro.
O jeito foi sair preparada. Pulseira de transição numa mão e lenço umedecido na outra. Bora subir. Não demorou nem dois minutos para eu perder “meu dupla” de vista. Vai com Deus! O motoqueiro ficou comigo. Já avisei que não estava bem. Como estava muito enjoada, não comi nem tomei os suplementos antes do trecho. Saí apenas com a água tônica de duas horas antes no estômago. Corria num ritmo lento, mas cadenciado, tentando administrar, mal-estar, fraqueza e dor de barriga. Mais ou menos na metade do percurso não teve jeito. Seta pra direita, uma vala à vista e só deu tempo de falar pro motoqueiro: “me espera mais pra frente, que vou ao banheiro”. Pouco tempo depois, voltei pra pista e ele estava fora da moto, desmontando a mochila e tirando um rolo de papel higiênico pra me dar. Tadinho!!! Todo preocupado. Avisei que não precisava e segui correndo. O ritmo diminuiu e fiquei preocupada quando comecei a ver que as placas de quilometragem da rodovia pareciam embananadas. Claro que era eu, que não estava raciocinando Eu pensava: “Lá atrás era quilômetro 25, como agora está no quilômetro 5. Tem alguma coisa errada com essas placas decrescentes”. Depois ainda tive a impressão de ver a placa km 2 antes do km 4.
O motoqueiro perguntou se eu estava bem, balancei a cabeça com um não, mas continuava a correr. Não sei mais se estava trotando ou correndo, só sei que não estava bem. Li numa placa: Restaurante a 300 metros. Sabia que meu trecho terminava num restaurante e rezava para que fosse este. Não era. Era o da cachoeira da divisa dos estados. Aliás, essa queda é maravilhosa, pena que não pude contemplá-la desta vez. Não vi nenhum restaurante, só alguns carros e pessoas olhando meu estado já meio torto de correr. O motoqueiro estava preocupado, avisando a organização pelo rádio. Pouco mais a frente não agüentei e comecei a andar. Havia cones separando a pista do acostamento, um a cada cerca de 100 metros. Resolvi andar de um cone para outro e correr dois. Péssima estratégia para uma equipe que só via as colocações caindo nesse dia que antes parecia perfeito, pelo menos para fim. Mas foi o que deu pra fazer. Quase no fim da subida duas meninas me passaram. Elas fizeram o trecho duplo em dupla.
Passada a placa da divisa dos estados finalmente começou a descer. Mal ou não, resolvi me jogar serra abaixo. Sentia as pernas fracas e doídas, mas se caísse, desceria rolando e chegaria do mesmo jeito. Cheguei!!! Sem fôlego e sem energia, passei a pulseira e mal conseguia andar e respirar ao mesmo tempo. Não conseguia sequer atravessar a rua para entrar no tal restaurante. Alguém perguntou se estava bem, respondi que não enquanto andava de um lado pro outro, sem rumo. Sentei num banco do restaurante, enquanto o Luis foi buscar alguma coisa para eu tentar me alimentar e hidratar. Respirava sem controle, quando a equipe médica, que aguardava o almoço ser servido, veio me ajudar. Soro na veia com sei lá quantos medicamentos. A equipe precisava seguir, então me deixaram na ambulância e avisaram que voltariam. Nesse tempo, recuperado o fôlego, a cor e, claro, até a voz, várias pessoas, atletas e staffs vieram falar comigo, saber se estava bem, se precisava de ajuda ou só bater papo. Vários papos bons, ânimo recuperado, só faltava voltar pra equipe.
Encontrei com todos pouco à frente de Paraty. De novo o Rafael entraria para correr. Perdi as contas quantos trechos ele correu nesse dia. Eu já tinha encerrado os meus, então precisava tentar me recuperar para o dia seguinte. Com o tempo nublado, revezando trechos com garoa e chuva, a equipe tentou não cair mais no ranking, já na 18ª colocação. Quase no final do dia, chegávamos nas transições com os tapetes de tempos recolhidos. Foi uma baita pressão psicológica.
Guerreira pra caramba! Parabens Li!!!
26 out 2009 - 14:29