Uma brasileira na prova mais dura do mundo
A educadora física Carina Faggiani participou, em fevereiro, com a equipe Terra Mundi Quasar Lontra Master, da Patagônia Expedition Race, tida como a corrida de aventura mais difícil do mundo. Abaixo, ela conta um pouco dessa experiência, que mudou seus parâmetros de dificuldade e segurança nas competições:
Relato Patagonia Expedition Race 2010
por Carina Faggiani, equipe Terra Mundi Quasar Lontra Master
Dois meses antes do início da competição a correria já havia começado. Foram dias procurando apoio para custear todas as despesas e conseguir todos equipamentos, que aliás não são poucos. Sorte ter amigos que puderam me ajudar nessa missão e já vai um agradecimento especial para o Luiz Lorejan, que sempre esteve ao meu lado nessas buscas; à Shubi que me emprestou carinhosamente grande parte dos equipamentos; e ao Carlos Fontoura, que me deu muita dicas e forneceu todo equipamento de vertical. A dificuldade Patagonia Expedition começa muito antes da largada e cuidar da logística teve um peso enorme para o sucesso da equipe.
Passando a fase dos prepartivs, chega a hora da viagem. Pra começar, saímos de um calor de 35 graus para um friozinho de 0 grau. Já dava para se ter idéia do que enfrentaríamos. Dias de arrumações e compras antes da largada, kits de comida de um lado, roupas e equipamentos de outro. Até aí tudo certo.
Chega a hora do teste de canoagem. Não tinha mais como fugir e lá fomos nós virar o barco no estreito de Magalhães. O vento já se fazia presente e a temperatura da água nem preciso comentar… Depois do teste, fiquei doida para remar naquele lugar. As coisas estavam menos difíceis do que o imaginado (até então!).
Testes, logística e apresentação das equipes a parte, fomos para a largada. Esta que estava programada para ser de canoagem (8 Km), seguida de uma perna de trekking de 16 Km, teve que ser alterada porque a organização disse que não seria possível remar naquelas condições. Isso me deixou muito triste, já eu estava louca para enfrentar aquelas águas, mas depois que entramos na balsa e chegamos à Terra do Fogo, me convenci de que remar não seria a melhor opção naquele momento. Estava de arrasar, com as ondas estourando master e o vento bombando!. Trocamos os 8 Km remando por mais 10km correndo e de cara mais 26 Km de trekking, com o estreito de Magalhães à direita, um campo minado à esquerda e um vento de uns 30 nós na cara!!!
Fomos correndo sem tréguas todo o percurso. Por alguns momentos me deu vontade de pedir para os garotos caminharem, mas não dei o braço a torcer. Eles carregaram uns pesos da minha mochila e fomos firme até o PC1, onde chegamos em 4º lugar.
Chegando lá logo pensei: Ufa! Bike! Montamos nossas bicicletas e partimos para 110 Km de pedal. Pensei: vai ser moleza, só estradão! Mas ninguém imaginava que seria tão extenuante pedalar naquele lugar. O vento bombava na cara, e até nos derrubando da bike em alguns momentos. Nossa média naquela estrada plana não passou de 10 Km/h nos primeiros 30Km.
Nunca fiquei tão feliz em ver uma curva para a esquerda. Eis o nosso descanso, foi maravilhoso. O vento nos empurrando e nos levando por aqueles pampas intermináveis. Estávamos numa progressão razoável quando comecei a repensar a logística de roupas. Pensei termos exagerado um pouco. Tenho que confessar que na prova inteira passei mais calor do que frio… Enquanto isso, o Victão parava para por o anorak, depois parava para tirá-lo, depois parava para colocar e parava para tirar, e assim fomos ultrapassados por algumas equipes, chegando em 7º no PC3.
Ficamos feliz ao chegar lá, pois encontraríamos nossa comida, coca-lola, etc.. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Os sacos de comida não haviam chegado e só os encontraríamos apenas no PC5. Ai ai ai… Resolvemos tirar uma sonequinha antes do trekking “curto” de 55 Km e quando estávamos para partir, veio a notícia de que os sacos haviam chegado! Eba! Comida! Depois de muito custo o Victão levantou. Nnunca vi tanta preguiça pra sair do sleep…rsrsr. Fizemos uma comidinha e partimos antes do Sol raiar.
Começamos o trekking pelos pampas patagônicos. Nunca andei tanto tempo em linha reta na minha vida. Sem ver nada diferente pelo caminho, as vezes encontrávamos uma lagoa: “Olha uma lagoa!” hahaha…. E foi só isso, nada mais, durante 55 Km, até chegarmos ao PC 4, onde também não havia nada. “O que aconteceu?” Seguimos rumo ao PC 5, onde a parte mais emocionante de todo o trekking foi a travessia de um riacho. Rimos muito ao ver o Victor saltando…rsrsr. Sem comentários!
O PC5 era em uma gruta, aliás, a única visão diferente daquele deserto. Só assinamos o PC e descobrimos que não precisava ter passado no 4 (tempo perdido!). Saímos rumo ao PC6, quando a paisagem mudou um pouco. Alguns arbustos e uns morrinhos, nada muito emocionante até o PC6, apesar da disputa com os Finlandeses para ver quem assinaria primeiro.
Encontramos nossas queridas bicicletas novamente. Não estávamos fazendo transições rápidas, pois era difícil devido ao frio. Isso me fazia não ter vontade de parar. Quando esfriava, ficava tudo mais difícil. Montar a bike era difícil, comer, beber, falar… Foi o início de 170 Km de pedal. O começo foi maravilhoso, o vento tinha diminuído e o céu estava claro. Assim fomos, até que o tempo pareceu parar. A Patagônia parecia ter se desligado, não havia mais nenhum ruído além das nossas bikes. Ficou tudo muito “sinistro”.
Logo observamos uma tempestade se aproximando. Eram 9 h30 da noite, tínhamos mais meia hora de luz e mais alguns momentos secos. Resolvemos parar numa casinha no caminho, o que era bem raro de encontrar. O dono da casa nos cedeu gentilmente um abrigo, estava bem quente lá dentro e rapidamente tiramos uma soneca. O plano era sairmos às 4 da manhã, mas quem disse que tivemos coragem de levantar? Saimos às 5h30 daquele lugar, um frio, um frio… E de volta à bike, para mais estradões nos intermináveis pampas chilenos.
Ainda estava achando a prova muito monótona, sem muitas emoções e mais fácil do que o esperado. O vento voltou a soprar contra a gente e foram horas e horas para vencê-lo. Estava mais fraco do que na primeira bike, mas ainda assim, foi nosso maior obstáculo. O joelho do Guilherme começou a doer bastante, eu estava sentindo um incômodo no meu, que se intensificou nos últimos 30 Km. O sofrimento foi maior quando começaram umas subidinhas, mas ainda estava suportável.
Conforme íamos nos aproximando das montanhas, a prova começava a ficar mais emocionante. O visual estava mudando, os pontos de neve começaram a aparecer no topo dos cumes e começamos a sentir o que enfrentaríamos dali para frente. Assinamos o PC7 e logo partimos para concluir essa jornada de pedal. Depois de brigar um pouco com minha bike – estava sem a coroa menor, o que me fez forçar bastante o joelho nas subidas -, chegamos ao PC8. Daquele momento em diante seria a equipe pela equipe num trekking de 110 Km. Ficava tentando imaginar o que encontraria pela frente.
Arrumamos nossas mochilas e nos programamos para sair cedo. Comemos, dormimos, dormimos mais um pouco e mais um pouco, então saímos… Assustada com a neve, levei bastante roupa de frio e me arrependi disso logo no início do trekking. Devo confessar que estava carregando mais roupa do que o necessário, um erro de logística. Iniciava aí a parte mais dura da prova, o trekking mais difícil de toda minha vida. Foi impressionante. Começamos subindo uma piramba no meio de umas árvores tortas, secas e caídas. Tínhamos que pular os galhos, desviar de arbustos, e por aí vai. Um verdadeiro vara mato. Stephan (organizador), como disse o Victor, é Lucas patagônico…rsrsrs.
Não existiam trilhas, a progressão naquele momento já não era muito rápida, talvez uns 3 Km por hora. Daí pra frente foi só subida e descida. Nos planos, as turvas – adorava andar nelas, era um amortecedor para meus joelhos. Iniciaram os grandes barrancos de cascalho: ANIMAL!!! Havia uma única chance de passar, se escorregasse….já era! Foram horas andando inclinado, contornando as montanhas. Passávamos por trechos de neve, em que me diverti bastante e o sobe e desce continuava. Mas aí a dor no meu joelho começou a aumentar e comecei tomar remédio. Hora eu, hora o Guilherme. Descer se tornava uma tortura e era um gemido a cada passo. Descíamos em uns lugares onde parecia impossível. Só tínhamos uma chance, não podíamos errar.
Depois de algum tempo chegamos ao PC 9, um rapel montado “nas coxas”, só com duas cadeirinhas meio duvidosas e um grigri para descer. Telmo foi o primeiro a encarar, Victão começou a descida, desistiu e voltou para trocar de cadeirinha com o PC. Muito engraçado, ele estava tremendo de medo de descer, mas foi que foi. A seria a minha vez, depois de uns 10 minutos parada esperando, meu joelho começou a doer muito, muito mesmo. Foi bem difícil fazer o rappel daquele jeito. Chegando embaixo, deitei e pedi mais analgésico e antiinflamatório. A coisa estava ficando feia e daquele buraco, o único jeito de sair era caminhando, não havia resgate. Assim fomos, andando numa progressão bem lenta. Eu caminhava com bastante dificuldade, principalmente nas descidas.
Era um vale interminável para chegar ao PC10. Caminhamos e caminhamos nesse cânion até chegarmos às turvas, que víamos do alto de uma montanha. Tínhamos que atravessá-la. Quando pensávamos estar sós, aparecem os japoneses. Tiramos umas fotos e cada um seguiu seu caminho. Andamos e andamos, até chegar à montanha seguinte. O PC estava do outro lado. Estava escurecendo. Falando assim parece fácil, “só tínhamos que atravessar a montanha”. Subimos e subimos até encontrar um lugar para bivacar, já estava escuro. Decidimos que o melhor a fazer era parar e esperar clarear. Foi o que fizemos. Comemos e dormimos, mas dormimos demais, nunca vi tanta dificuldade para levantar. Na minha opinião, foi o nosso maior erro na prova.
Saímos para o trekking às 10h da manhã!!! Isso não poderia ter acontecido, mas foi que aconteceu. Começamos a andar, subir e subir até o topo, e aí sim voltou a ficar bem difícil: tinha que descer! A vista era maravilhosa, espetacular! Um rio azul azul lá embaixo, cortando todo o vale. Uma das vistas mais bonitas que já presenciei… Tínhamos que chegar lá. Inicio-se a descida e meu joelho doía muito, mas fui fui fui… Depois de algum tempo chegamos em uma trilha, a única de todo o trekking. Havia um recado em uma folha de papel escrito a caneta para seguirmos pelo caminho mais fácil até o PC10, que estava 1,5 Km a frente. Andamos mais de 3 Km e nada de encontrar o PC. Pegamos algum caminho errado.
Do alto localizamos o PC e lá vamos nós descer novamente até a tirolesa. Essa parte foi bem engraçada. Coitado do Victão, quase morreu congelado. Ele se candidatou a ser o primeiro, mas a corda enrolou e ele ficou preso no meio do rio gelaaaaaaado. Todo mundo teve que ajudar ele a sair. Puxa corda e lá vem o Victão todo molhado de volta. Depois disso não tivemos mais problemas com a tirolesa, todos passaram e chegamos ao PC10. Meu joelho estava doendo mais do que antes. Queria continuar, mas a decisão da equipe foi parar por alí. Se partíssemos daquele ponto não teria volta, não teria resgate, nada nada, somente nós mesmos. Nem eu nem o Guilherme estávamos 100%, então paramos. Dormimos no PC e partimos no dia seguinte de volta ao PC8.
Foi uma experiência mágica, um trabalho físico e mental inexplicável. O tédio das primeiras pernas se misturaram às emoções do trekking. Mudei meus parâmetros de dificuldade e segurança. Sem estar presente não tem como imaginar! Um lugar mágico, com uma energia impressionante. É realmente o fim do mundo, inóspito!


Caraca que demais. Parabéns a todos por esta corrida.
Bjs Adriana
25 fev 2010 - 9:25
parabéns ao campeões!
Não é p qualquer um!!
25 fev 2010 - 11:40