COLUMBIA CRUCE DE LOS ANDES
André Stefanini – Equipe Mootiva.Com – 04 a 07/Fev/2010
Situação
Numa conversa com o Rafa Niro durante um treino de bike na USP, lá pra julho/2009, decidi que, apesar da correria para o casamento, seria possível correr o Cruce de los Andes em fev/2010. Afinal, os treinos começariam só em novembro, após a lua de mel. E decisões para provas longas como essa devem ser tomadas com muita antecedência: são planos, dinheiro, logística, provisão de equipamentos e, principalmente, cumprir um programa de treinamento específico.
O Cruce de los Andes é uma corrida de montanha, que acontece todos os anos, e seu trajeto cruza a cordilheira entre o Chile e a Argentina. Esta etapa iniciou na Patagonia Argentina, passando pelo Paso El Manso e terminando na fronteira com o Chile. N um trajeto de muita variação de altitude, com uma distância total de 90km.
“Beleza, então vamunessa! vai ser legal, e um mega-desafio…”. Essas foram as minhas palavras de decisão e uma previsão do que viria pela frente. Dito e feito!! Para quem gosta de aventura, foi um prato cheio.
Depois da inscrição paga, eu ainda não sabia quem correria comigo. Algumas duplas formadas, outras se formando, algumas desistências, e pronto: O Rafa Niro me chamou para ser seu parceiro, sob o nome de Mootiva.com! Foi uma honra e ao mesmo tempo uma grande responsabilidade, já que ele tem um ritmo de corrida mais rápido que o meu. Eu teria que treinar paaaaaaaaaaacas pra acompanhá-lo!
Conheço bem o figura, já que desde 2005 corremos juntos, pela Equipe Uirapuru. Devo a ele um pouco da rapidez e da prática logística que conquistei nas corridas, já que as frases mais usadas por ele são: “tudo pronto?”, “vambora?”, “chega de enrolação”, “faz desse jeito aqui… já fez?”. O cara não para! E tenho certeza de que o pouco de paciência que ele tem, vem das minhas frases: “caaaaalma, vamos pensar direito”, “a pressa é inimiga da perfeição”, “tô pensando em tomar um gole d’água… não agora… quem sabe daqui a pouco… ué, vc já tomou?… mas já? Por que?”.
Eu já vinha treinando, recuperando as condições físicas, merecidamente diminuídas na lua de mel. Pedi ao Caco que elaborasse um plano de treinos específico. Corridas longas, desníveis acentuados, tiros intermináveis, repetição de subidas, regenerativos. Enfim, posso dizer que estava com a consciência tranquila quando chegamos em Cerro Catedral. Obedecendo ao mestre, o objetivo era correr a prova toda, sem ser deixado para trás pelo meu companheiro de equipe.
Claro que a alimentação merecia atenção: muito carboidrato para correr, proteínas e aminoácidos para a rápida recuperação muscular, sais para reposição eletrolítica, micronutrientes e haja líquidos! Além da energia “normal”, o gasto é ainda maior quando se enfrenta o frio… E que FRIO que fazia naquele lugar!!!. Mandei ver: azeitona, castanhas, bananinha, pão, salame, peito de peru, queijo, geléia, nutella, etc., fora géis e suplementos durante a corrida. Banana, maçã, muito macarrão e churrasco na chegada de cada etapa, nas refeições providas pela organização. E à noite, sempre mandando um salgadinho, bolacha, miojo cru, polenguinho com peito de peru, goiabada, etc.
A sistemática da prova era a seguinte: cada dupla tinha um container, no qual colocamos barraca, sleepings, isolantes, roupas para os 3 dias de provas e para as noites, tênis reserva, suplementos alimentares e comidas para a trilha. Eles transportariam essas caixas para os locais de acampamento, onde havia também tendas da organização com restaurante, banheiros, áreas de convivência, etc.
Ao chegar em Bariloche, já começamos “bem” com a nossa logística: a bagagem não chegou e, segundo a Aerolineas Argentinas, seriam entregues no hotel até o meio-dia de quinta-feira. Dormi com a roupa do corpo. Cllllaro que às 14hs já tinham algumas pessoas do nosso grupo no aeroporto, para trazê-las com uma pickup alugada… e óbvio que as malas estavam lá, largadas. Seriam entregues só à noite. Se dependesse da companhia aérea, não conseguiríamos encher nossos containers e deixá-los no caminhão da organização até 17hs, limite para tal.
Enchendo os Containers
Às 16hs (faltando 1 hora para estourar o limite), estávamos com as coisas na arena da largada, enchendo até os cantinhos mais impossíveis de duas caixas. Compartilhamos caixas e barraca entre nós e a equipe do Pedro Vianna e Marco Rossini (Pé de Cobra), já que os animais levaram uma barraca que mais parecia um circo, de tão grande… O que viemos a agradecê-los MUITO pela iniciativa, já que era a única barraca que comportava as caixas na parte interna. Como choveu muito, isso foi de EXTREMA importância e comodidade.
Tendo finalmente as caixas da E-Lama, Mootiva, Flower People e Pé-de-Cobra cheias, enfiamos no caminhão e finalmente respiramos aliviados… isso às 17h10, ainda xingando a Aerolíneas…
Pronto! Era só esperar a largada, na manhã do dia seguinte…
Largada e Primeiro dia
Nada muito emocionante. Qualquer equipe poderia largar na hora que bem quisesse entre 8h e 10h30 de sexta-feira. Depois de mais de 2hs de busão, chegamos à arena de largada, que ficava no Lago Escondido. Enchemos squeezes com isotônico e carboidratos, camel-back com água, e pronto: passamos em cima do tapete. Como o controle era eletrônico, o tempo computado seria “de tapete a tapete” não importando a hora da largada/chegada.
Isso não era bem verdade. Quem demorasse para largar, perderia MUITO tempo em filas para atravessar pontes e também afunilamentos no início dos “senderos” (trilhas). Era SIM importantíssimo largar CEDO, para evitar os entupimentos. Soubemos disso beeeem depois, claro…
Eu e o Rafa largamos 30min após o início do horário, quando grande parte das equipes já havia largado. Filas… tempo perdido mesmo. Inclusive 1h para atravessar uma ponte, que só passava UMA pessoa por vez. Até que, do ponto de vista físico, foi bom, já que essas diminuídas na velocidade serviram para iniciarmos a prova aquecendo e não socando a bota.
Mas o fato é que, após a dispersão da massa de atletas, nós corremos bem. O percurso foi caracterizado por desníveis importantes, com subidas bem intensas, e descidas para se “despencar” com cuidado. Íamos sempre buscando o tempo perdido e aí sim, socando a bota.
No trajeto, atravessamos o Lago Escondido em uma pequena lancha, o que nos fez “parar” e perder um pouco do pique. Na recuperação do ritmo, eu tive câimbras. O Rafa ia na frente, só chamando na xinxa: “Vai, meu…. quié… tá ruim? Soca a bota que tá acabando!”… Como se fosse tranquilinho. E eu, tentando, e ficando tenso. Até que caí e não consegui levantar. Relaxei 15 segundos, apertei os locais para espalhar o ácido lático e continuei correndo. Faltava 1km apenas (segundo informações… mas esse 1km, virou 3,5kms no GPS).
Completamos a primeira fase em 4h59min, sendo este um percurso de 32.6km. Até que nada mal, pelo desnível. E ficamos bem satisfeitos em saber que nossa colocação ficou em 91.o, das mais de 750 equipes que largaram.
Ao chegar ao acampamento, precisávamos “só” pegar o container (lá na pqp), trazê-lo no braço até o local de acampar, montar a barraca (enorme, para 6 pessoas)…. tudo isso, molhado batendo os dentes de tanto frio. De quebra, montamos a barraca cor-de-rosa das meninas (bonitinha, mas ordinária…. difícil de montar aquilo!). Só depois pudemos fazer uma hidratação, mandar uma proteína, descansar e almoçar o macarrão com churrasco servido na tenda da organização.
Segundo dia
Acordamos no acampamento e começamos tudo de novo. Mas agora com chuva na cabeça. Arrumei a mochila, vesti o colete de prova, tênis e casaco do dia anterior, molhados e enlameados (e fedorentos, claro). Desmontamos a barraca, socamos tudo de volta para dentro das caixas, entregamos no caminhão, e beleza! Prontíssimos para uma nova largada, dessa vez por ordem da classificação geral do dia anterior.
Estávamos no segundo bloco, logo após a elite… caraaaaaaaaaacas! E a chuva já era bem forte. Agora daria pra recuperar o tempo perdido, mas ao mesmo tempo, vinha a preocupação com lesões. Isso porque o trecho teria características bem desfavoráveis.
O trajeto já começava com um barranco morro acima. O percurso deste dia seria uma loooooooooooooonga e tenebrosa subida ao Paso el Manso, ponto no qual cruzaríamos a cordilheira. Ao iniciarmos, conseguimos ultrapassar algumas equipes que não estão acostumadas com os perrengues de corridas de aventura: muita lama, piso totalmente irregular, desnível acentuado, vento e um frio de arrebentar. Ao chegar no topo, umas 2h depois da largada, viraria um boneco de neve se parasse. O vento era tão intenso, que achei que sairia voando feito a Marry Poppins e o suor acumulado dentro do anorak estava congelando meus braços. Depois de chegar ao topo, desceríamos por mais de 10kms. Acho que foram 1h20 só despencando… e congelando. O vento melhorou assim que descemos um pouco, mas na descida o corpo produz menos calor e começa a esfriar, aí, mesmo mandando pra dentro as azeitonas e castanhas (gordura), o frio dominava, forte.
Foi no trecho da descida que o joelho do Rafa começou a apresentar problemas. Diminuímos o ritmo, andamos em uma parte, paramos para ele descansar o esqueleto, mas não foi suficiente. Já no plano, faltando uns 10kms para a chegada, o joelho dele dava indícios de que precisaria parar um pouco. Paramos de correr e passamos a andar quando um membro da organização nos falou que faltavam 3kms. Na verdade, pelo GPS, vimos depois que dalí faltavam quase 8kms. Anda, corre, anda, corre, anda… e naaaada de chegar. Equipes passando e nós já desanimados pelo ocorrido. Já não sabíamos quantas equipes tínhamos passado, mas só de ver os caras correndo à nossa frente dava vontade de distribuir voadoras!
Finalmente a linha de chegada e… A TENDA RESTAURANTE. Chovia forte. Partimos direto para a comida, já que as caixas ainda não haviam chegado. Comemos com a mão, no mais puro estilo “lei da selva”. Não havia pratos, copos, talheres, nada. Mas o importante é que tinha o churras com salada da organização.
Após correr 26,3kms com tal desnível, completamos a batalha do dia com 4h20. Um péssimo tempo, mas mantivemos a nossa colocação geral de 81.o. Ótimo, visto as circunstâncias!
Após comer, soubemos que só uma parte das caixas conseguiram ser entregues. O acampamento seria dividido em dois lugares. Uma ponte havia quebrado e os caminhões não cruzariam mais. Instruções da (des)Organização: “quem achar a caixa, monta o acampamento. Quem não achar, sobe no caminhão e será transportado por 1km. Depois disso, andarão 5kms para chegar no acampamento 2B. Ali, achem sua caixa e acampem”. O Rafa não achou as caixas das meninas (Flower People – Luli e Adriana) e quando eu cheguei na “arena dos desesperados” (parecia um monte de flagelados procurando suas trouxas), fui instruído prontamente por ele a subir na bagaça. Lá na carroceria, como um bóia-fria no meio de mais de umas 100 pessoas, avistamos a caixa da Pé-de-Cobra, no chão.
Dividíamos caixas e barracas com eles, lembra? Não poderíamos, de forma alguma, ficar em acampamentos distintos. Seria o fim da logística. Uma das duas equipes ficaria sem roupas e comidas e a outra ficaria sem barracas e sleepings, naquele frio! Fui com o caminhão até a boca da trilha, e voltei, enquanto o Rafa foi com as meninas para o acampamento 2B, caminhando 5kms e com o joelho ruim.
Ao descer do caminhão, de volta à arena dos desesperados, o que eu vejo???? A NOSSA caixa. Com o número certinho, 165! Pensei na hora, “coitado do Rafa… com o joelho ruim, vai ter que voltar tudo isso”. E chovia…
O Rafa voltou depois de horas, quando já estávamos dentro da barraca, de “banho” tomado, protegidos da chuva. Que zona que foi aquela noite! Detonamos as comidas da caixa e dormimos umas 9h, merecidamente.
Terceiro dia e chegada
Ao acordar, caminhamos o trecho de 5kms para o acampamento 2B, onde seria a largada (agora, o Rafa estava fazendo o mesmo trecho pela 3.a vez). Dureza, já que o tênis, o casaco, o colete de prova e a mochila estavam molhados e o frio pegava às 7h30 da manhã. Mais uma vez, do ponto de vista físico, não foi tão mal assim, já que serviu de aquecimento.
Largamos para o último trecho. O joelho do Rafa estava zoado, então começamos num ritmo bem lento. Mesmo assim, não deu pra fazer o trecho todo correndo. O Rafa decidiu andar e, como assim não havia impacto, ele conseguiria mandar bala, e acelerar forte o passo. Eu mal conseguia acompanhar o cara andando. Se ele fizer marcha atlética, vai se sair bem.
Durante o trecho, paramos apenas 2 vezes, durante menos de 1 minuto, para um esparadrapo no joelho do Rafa e para colocar um corta-vento numa região de muito frio e chuva.
MUITAS equipes nos ultrapassaram, e nós desanimamos pela grande perda de posições. Mesmo assim, o ritmo era elevado. O Rafa andava forte, e eu, de vez em quando, perdia o ritmo e tinha que alcançá-lo correndo.
Terminamos a prova. A duras penas chegamos na concentração de pessoas e ainda descobrimos que faltava atravessar um pequeno morro, que quase nos matou hehe… Era o quilômetro final. Ao ver a linha de chegada, foi realmente emocionante. Era o fim de um grande trajeto e um grande trabalho por 3 dias, já que mesmo no acampamento, era impossível parar de pensar, organizar, arrumar mochila, alimentos, roupas, equipamentos, etc.
Acabamos em 129.o, com 14h44min, das 599 equipes que cruzaram a linha de chegada.
Dalí em diante, era só comemorar com os amigos, e claro, comer numa churrascaria argentina, o que fizemos à noite, todos com caras de zumbis!
Agradecimentos
Essa é a parte mais difícil, já que não é possível lembrar todos os nomes, envolvidos. À minha esposa, Lu, que me incentiva no esporte e me entendeu treinando “como animal” antes dessa prova, um agradecimento especial. Aos demais, o meu muito obrigado por ajudarem a tornar esta corrida mais uma realização, uma experiência ímpar e momentos inesquecíveis entre os amigos. Ao Rafa Niro, por ter confiado na minha capacidade de acompanhá-lo; ao Caco pelo ótimo programa de treinos; e aos amigos e companheiros de perrengue Luli Cox, Adriana Boccia, Renato Maldonado, Diogo Pereira, Marco Rossini, Pedro Vianna, entre vários outros, pela diversão, companheirismo, amizade e incentivo.
ANDRE ROSA STEFANINI – Mootiva.Com
Informações, fotos e vídeos da organização em www.columbiacruce.com















AndreZZao! Vc é o cara. Fiquei emocionado com seu relato. Sempre foi e sempre será um prazer ter voce correndo ao meu lado. sei bem como é esse meu jeito pilhado e so vc para aceitar, entender e tirar o melhor disso.
Muito obrigado pela paciencia, pelo companheirismo na situacao que estavamos. Meu joelho doi ate hoje, mais de um mes da prova. Nao poderia ter dupla melhor para este perrengue maravilhoso de que participamos.
Tenho certeza que terao outros tantos.
e fica o lema para quem esta lendo: essa nossa galera nao desiste nunca!
valeu man!
abraço
05 mar 2010 - 14:58
Depois dessa me sinto um andrézinho!
Conhecendo vocês imagino como foi dura essa noite de martirio em busca da caixa perdida. Mas também se não for assim não tera muita graça.
Parabéns aos malucos que vão a Argentina e não compram nos shoppings de Buenos Aires.
05 mar 2010 - 18:32
Adorei seu relato André. Fiquei imaginando como seria passar por tudo isso!
Parabéns e continue com essa garra sempre!
Beijos
09 mar 2010 - 17:59