Desvendando o Ultrapangaré

Postado por em 23 Jan 2012 | Sem categoria, Ultramaratona

Sentado na rede, à sombra de uma varanda de uma casa de fazenda, bem ao estilo colonial, emoldurado ao fundo com uma bela paisagem da Serra da Mantiqueira, estava um ultramaratonista que acabara de participar da Brazil 135 Ultramarathon. A julgar pela facilidade em sentar e levantar da rede, mal parecia que terminara de percorrer 217 quilômetros, com intensos desníveis e dos quais apenas 20 quilômetros são planos. Como é típico entre os ultramaratonistas, o bapo fluiu facilmente e logo viriam os detalhes totalmente informais de como se preparar e, o mais difícil, completar uma das principais (se não a principal) competições de longa distância do país.


– Qual o seu treino mais longo para uma prova como esta?


Ah, eu corro no máximo 20 quilômetros por dia.


– Vinte km para uma prova de 217 quilômetros?

É, eu não gosto dessa coisa de que ultramaratonista tem que fazer muito volume. Sou educador físico, faço meu próprio treinamento.

– Mas quanto tempo você levou para se preparar para a BR135 esse ano?

Treinei dois meses para esta prova.

– Um máximo de 20 km por dia em apenas dois meses?

Isso mesmo, porque estava focado em outros projetos e não tive muito tempo para me preparar.

Depois de um bom tempo, a pergunta que deveria ter vindo primeiro: Desculpe, mas quem é você?

Eu sou o Ari.

– Ari? O Ari, Ari? O ultra que foi vice-campeão da BR135 em 2011?

É.

Tietando o Ari


Na mesma simplicidade em que o papo havia começado, ele se apresenta: Ariolvado Branco, que na minha imensa dificuldade em guardar fisionomias não pude reconhecer um dos mais importantes ultramaratonistas brasileiros, tendo no currículo provas como os 100 km de Spartathlon, na Grécia, os 217 km de deserto da Badwater ou ainda os 90 km da Comrades, na África do Sul.

Na conversa com estranhos e que mais pareciam amigos de longa data, Ari contou um pouco frustrado como foi a BR135 2012 para ele. Com planos de fechar em cerca de 27h30, o sono, a falta de pacer (corredor/amigo/apoio, que corre ao lado do atleta para dar ritmo e incentivar) e o terreno mais duro que o normal acabaram o tirando da meta já há mais da metade da prova. “Tive muito sono e sem pacer é pior ainda porque não tem ninguém para conversar”, lamentou sem tirar o sorriso do rosto. Com 31h30, Ari conquistou a sétima colocação da etapa já considerada a mais disputada de todos os anos. Tanto que o recorde de 26h43 de 2009 do ultra carioca Marco Farinazzo foi batido pelo até então desconhecido Eduardo Calixto, de Santa Rita do Sapucaí(MG), que fechou a prova em 26h20. Embora o recorde ainda seja questionado, já que o percurso batido por Farinazzo era diferente do atual, a prova foi disputadíssima, com o clima extremamente favorável e com competidores cada vez mais bem preparados.

– Ari (agora já posso chamá-lo pelo nome), como são seus treinos para esse tipo de prova?

Eu faço tiro de 1km, 2km e 10km. Faço 10 quilômetros em uns 38 minutos. Fico acabado, daí volto trotando. Corro na areia da praia, porque tem menos impacto. Também faço musculação e puxo pneu pra treinar força.

– Mas você não treina subida?

Treino no pico da Antena, no litoral, mas é pequena, etão faço a subida algumas vezes.

– Só isso?

Só! É eu sei, treino pouca subida. Não tenho onde treinar, mas esse ano vou mudar isso. Quero praticar mais subidas, que é meu fraco. Na descida vou bem, faço pra 3’20 o quilômetro.

(E eu só pensando nos poucos 20 quilômetros de plano da prova e, com pouco treino de subida, ele completando em apenas 30 horas. Que alegria!!!)

Soube ainda que o ultra-atleta divide seu tempo entre cuidar da padaria que possui em Praia Grande, no litoral de São Paulo, e o treinamento para as ultramaratonas. Aliás, os fornos da padaria, ligados no máximo, também o ajudaram a treinar para os 217 quilômetros no deserto na Badwater. Mais inacreditável é a outra “ajuda” que Ari tem há algum tempo, de um cavalo, comprado especificamente para fortalecer o quadríceps e o quadril.

– Um cavalo?

É, quando comprei ele ficava na garagem. É ótimo para fortalecer a parte interna da coxa. Devia experimentar.

– Melhor mudar de assunto. Como é sua alimentação para essa prova?

Eu gosto de bolacha salgada, água de coco, suco de goiaba e sopa Vono. Depois da prova fico desesperado para comer carne.

– Mas você não toma suplementos?

Não, não gosto. Só tomo BCAA e malto. Mesmo o BCAA parei de tomar nessa prova porque não me senti bem e já cortei logo. O bom mesmo é comida. Não muito na prova, porque pesa. Mesmo assim, a pessoa tem que se acostumar a comer de tudo e andando. Essa coisa de que a pessoa tem que descansar depois de comer é pura lenda. Come andando, mas come algo que o estômago não precise de muita energia para processar. Por isso gosto da sopa.

Caracas, melhor tocar em outro assunto, de novo. Você tem problema com bolhas?

Não, nunca tenho bolhas.

– O que você faz para evitá-las?

Eu encharco meus pés de Hipoglós e uso sempre um tênis novo.

– Dizem que tênis novo precisa ser amaciado antes de ser usado num prova?

Depois de 217 quilômetros, o meu agora está bem macio. (Hahahahahahaha)

Ok, ok, ok.

O bate-papo acabou se tornando uma consulta particular com o experiente ultramaratonista. Rompi diversos mitos, que até então pareciam regras. Definitivamente, essa história de suplementos importados, tênis macios e alimentação regrada depende de cada um. Aprendi que o mais importante mesmo é ter uma boa cabeça (e isso, definitivamente, o Ari tem) e, como diria o comandante e organizador da prova, Mario Lacerda, manter-se sorrindo.

Sorrisos também sobram ao Ari, mesmo quando se recordava de uma prova, que correu com o braço recém-baleado por conta de um assalto que sofreu. “Corri a prova porque já tinha a inscrição e porque um amigo que também ia ficou insistindo. Fui e ainda assim corri mais do que ele”, brincou sem perder a humildade.

Apesar de ser avesso a redes sociais, Ari encarrega a filha Bruna de manter parentes e amigos atualizados sobre seus feitos. Na própria BR135, a filha de pouco mais de 16 anos se revesou entre o apoio, um trecho de 5 quilômetros correndo ao lado do pai e as atualizações no Facebook dela, é claro, já que ele não gosta dessas coisas.

Já prestes a ir embora, pois precisava encontrar um amigo gringo no centro de Paraisópolis, Ari ainda nos convidou para um café. “Passando por Praia Grande, o café é por minha conta”. Um convite a um bando de estranhos que ele nunca viu. Mais uma lição sobre o espírito das ultramaratonas!

à esquerda Bruna (a filha de Ari), o ultra Ari, o amigo e apoio e a turma do barulho: Raquel, Márcio, Robinson, Sandra, eu e Marco

O título

O caro leitor deve estar se perguntando como é que uma Zé-ninguém como eu tem a audácia de chamar de ultrapangaré alguém que corre centenas e centenas de quilômetros e que ainda tem como meta bater um recorde internacional de mais de 1000 quilômetros numa única prova?

Explico. Trata-se de brincadeira feita pelos amigos, no tempo em que corriam provas de no máximo dez quilômetros. Entre eles havia uma disputa interna, em que o último a chegar em cada prova ganhava a medalha Pangaré. Já correndo ultras, Ari passou a ser chamado carinhosamente de ultrapangaré.

3 comentários até agora

3 Respostas para “Desvendando o Ultrapangaré”

  1. vinicius toti

    caraco, parabéns ari, tudo de bom na sua vida, e carreira, desejo toda sorte a voce!
    vc é fera, tem objetivo, e muito potencial! verdadeiro corredor nato !
    =D
    abraços

    23 Jan 2012 - 21:00

  2. Sandra Simoes

    Quebrando paradigmas!!!

    Parabéns ao Ari, este super atleta, super gente boa, nos aguarde em Santos!!!

    E Lilian, parabéns pela reportagem, como sempre eficiente e bem humorada.

    Bjs,
    Sandra

    24 Jan 2012 - 10:38

  3. Excelente a sua matéria Lilian,
    O Ari é isso ai que vc descreveu……sem tirar nem por.
    Gosto muito dele e é sempre uma satisfação tê-lo por lá.
    Obrigado pela matéria…

    Voce vem SOLO em 2013???

    bj na turminha.

    nos vemos no Caminho……

    Comandante Mário Lacerda
    Brazil135 Ultramarathon
    Race Director

    27 Jan 2012 - 12:10

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