Terra de Gigantes é só para GIGANTES

Postado por em 31 Ago 2012 | Terra de Gigantes

“Terceira edição da Expedição Terra de Gigantes e pela terceira vez a equipe Guaranis superou todos os desafios impostos na competição. Além de completar mais esta e sempre dura prova, a equipe comemora a possibilidade de reforçar e ampliar laços de amizade, união e companheirismo.

A conquista destas quatro pessoas incríveis (André Stefanini, Fábio Monteiro, Marco Antonio e Rebeca Angeli) é um feito exclusivo a pessoas singulares, que se diferenciam pela coragem, caráter e vontade de cruzar a linha de chegada juntos. Parabéns Guaranis!”, Lilian Araujo.

Veja abaixo o relato de André Stefanini:

Era meados de maio, quando confirmamos a idéia de corrermos juntos a Expedição Terra de Gigantes. Inicialmente a equipe seria o Marco, a Lilian, o Carcaça e eu. Apesar de estar numa fase conturbada de trabalho, e ainda escrevendo um capítulo de um livro acadêmico, aceitei o convite, e achei razoável o tempo para os treinos longos e preparo para mais esse desafio. Sim, era imperdível, uma vez que correr com a Guaranis é sempre uma honra. Eles são muito determinados e competentes. Eu sabia que muito mais do que a corrida, teríamos mais uma oportunidade de rirmos, trocarmos idéias e curtirmos essa amizade de longa data. Além disso, a região de serras no Rio, próximo a Itatiaia, Penedo e Visconde de Mauá é fantástica. O local conta com relevo desafiador, paisagens deslumbrantes, vilarejos pacatos que abrigam quem vive em pequenos sítios, pessoas que tiram o leite da vaca pela manhã, que transportam sua produção em charretes, que criam galinhas soltas no quintal (e na estrada – quase matei uma com a bike), que são prestativos quando atletas doidos passam em suas janelas logo ao nascer do sol pedindo informações, e que são a imagem daquilo que nos dá saudade quando vivemos na cidade grande.

Perto da prova, tivemos alteração na equipe, quando a Lilian decidiu não correr por motivos de saúde que a impediram de treinar. Ahhhhh, uma pena, porque é uma companheira e tanto! Mas ela mesma descolou uma integrante forte, competente e determinada a levar a equipe até a linha de chegada. A Rebeca não estava se preparando para essa prova, e não conhecia a equipe… mas, como ela mesmo disse, não foi cautelosa ao extremo em sua decisão, e disse SIM, sabendo que daria conta do recado. E substituiu a Lilian com muita competência e determinação!
Correr 200km em um final de semana é algo “corrido”… por causa do transito infernal de São Paulo, mesmo saindo cedo, chegamos atrasados para o Briefing… nossa corrida já tinha começado. Perdemos algumas infos, que seriam importantes mais tarde.

Foi dada a largada no sábado às 8:20…. bom, para a nossa equipe, ela foi às 8:23, porque chegamos atrasados alí também. Mas 3 minutos não são nada em 30h de prova… então fomos com toda a força e fé!
Começamos com um trekking curto, de 1h30, até a primeira transição. Saímos para a primeira bike de 50km. Era um belo sobe-desce no começo, em meio às montanhas daquela região de serra.
Furou o pneu do Carcaça, e eis a surpresa: a camara reserva tb estava furada. Resultado: pegamos a outra camara reserva, esta de bico grosso, o que exigiu que arrombássemos o passador da roda. Perdemos um bom tempo, acho que mais de 1h. E perdemos mais algum tempo num pneu murcho da bike do Marco. Carcaça, fica registrado aqui que te darei uma bomba de presente e, na próxima prova, levo a minha tb. Várias equipes nos deixaram para trás… um certo desânimo, mas “vamos em frente, porque tem muita prova ainda!!”. Na segunda metade destes 50km de MTB, tivemos que primeiro carregar a bike morro abaixo, e depois enfrentar uma subida íngreme e interminável até a transição para o trekking, já em altitude bem maior.

Após essa bike e alguns percalços no caminho, iniciaríamos o trekking para a Pedra Selada, o ponto mais alto da prova.
Saímos de 1000m de altitude e fomos até 1750, de onde era possível ver um montão de cidades e vilarejos ao redor, além de um pôr do sol maravilhoso. A subida foi realmente punk… A Pedra Selada tem uma subida “famosa”, “turística”, super dura, mas pelo lado mais convidativo… foi por alí que DESCEMOS.
Mas nossa subida foi por uma trilha nova, pelo lado mais difícil, claro, estamos em uma corrida de aventura, pra que facilitar????? As câimbras me pegaram muito fortemente alí… eu já vinha com ácido lático acumulado da bike, cuja subida não foi nada mole. A cada 5 min, eu relaxava os músculos, tomava água, e continuava a subida, engatinhando e segurando nas árvores, porque esse era o jeito de não despencar morro abaixo. Poucos lugares permitiam alguém andar em pé por alí.
A altimetria da prova já dizia tudo: a inclinação não seria mole, e mostrava que tínhamos que prestar atenção na alimentação, hidratação e nos preparar psicologicamente para um pequeno sofrimento, que certamente valeria muito a pena. E valeu!! Pena não termos uma foto da equipe alí…

A Pedra Selada também foi o local escolhido para o rappel da prova. Aqui, faço um parêntese sobre uma falha da organização: os 4 atletas da equipe eram obrigados a fazer o rappel, por uma única via. Mar a organização não levou em conta a fila que isso causaria e tempo precioso que as equipes perderiam. Esse tempo, para muitos, causaria o corte, ou seja, seria altamente prejudicial e frustrante. Resultado: ao chegarmos lá, vimos que tínhamos pelo menos 3 horas de fila. Aguardamos 1h para confirmar isso, e depois perguntamos ao responsável da organização, que nos informou que seríamos penalizados em 1h. Calculando o tempo, sabíamos que não poderíamos esperar mais 2h pra fazer o rappel, por um problema da organização, porque sofreríamos o corte às 5h da manhã após o remo, frustrando nossos objetivos. Resolvemos então tomar penalização em nossa classificação, mas não perder mais tempo por conta de um problema que não era nosso.

Já era noite, e já havíamos ficado por 1h naquele frio congelante do Pico da Pedra Selada. Então, com muita dor no coração, resolvemos sofrer a penalização e descer para completar o trekking e entrarmos no rio para remar. Aparentemente sossegado, esse trecho já exigia determinação para que o fizéssemos correndo. Mas acabamos vencendo com facilidade a descida da pedra e mais os 8km até a transição para o remo.
No AT encontramos nossos coletes, remos e o tão aguardado saco estanque com mais comida, algumas roupas, suplementos e água. Huuuummmm, alí pudemos saborear mais um purê de batatas com azeitona, que o Carcaça usou seus dotes culinários para fazê-lo e ensacar em Zips. Comemos coisas com gordura, proteína, isotônico e mais sandubas de salame com queijo, os quais foram muito bem vindos durante toda a prova. Com o passar dos trechos eles iam ficando mais sinistrados nas mochilas e bolsos, mas sempre gostosos. Comi o último em casa, domingo a noite, ao esvaziar a mochila para colocar de molho no tanque… e ainda estava bom!
O trecho de remo foi outro grande desafio. Passamos ali o perrengue de maior frio da prova. Começamos às 22:00, já em situação adversa. A Lua favorecia enxergarmos a água, mas a névoa não deixava enxergarmos as pedras, e assim batíamos a cada 2 metros de remada. Ver as margens também era difícil, já que ao acender a lanterna, via-se uma mancha branca de neblina apenas. A temperatura, que já estava baixa, caia ainda mais com a madrugada. Por muitas vezes, tivemos que descer do caiaque para retirá-lo de atoleiros em pedras. As cãimbras pegavam devido ao frio e às pernas paradas e molhadas. Além disso, tivemos que fazer uma portage congelante. E antes dela, ainda tive que pular no rio para retirar o caiaque… água até o pescoço, a sensação térmica foi de -100.oC. Depois de mais de 4h de remo, 22km de frio naquele rio, chegamos no PC, todos tremendo muito, e a Rebeca com princípio de hipotermia. Ela já estava enrolada no cobertor de emergência e já não tivera condições e remar os últimos 40min. Comemos novamente, dessa vez com uma variedade no cardápio: o purê de batatas havia virado sorvete de batata com azeitona… congelou, virou pedrinha… viiiixe, tava booooooooommmm!!! Independente do aspecto daquilo dentro do saco plástico, aquela iguaria foi salvadora: gordura e carbo para mais um trecho de trekking, dessa vez de 7km, até a transição, onde seria o corte às 5 da manhã. Chegamos bem antes disso, ainda bem. Pudemos comer mais uns géis, umas bananinhas e purê petrificado para iniciarmos mais uma fase da prova.
A última modalidade era mais um Mountain Bike. Começamos às 4:40 da manhã. Eu estava com as roupas molhadas do remo, e nunca quis tanto encarar logo no início uma subida forte para esquentar. Os faróis eram potentes, e não precisávamos nos preocupar com a iluminação. Mas ninguém via a hora do sol nascer, porque alguns downhills naquele frio congelavam a alma.
Valeu a pena apreciarmos o nascer do dia ainda a 1000m de altitude. Entre as montanhas o sol provocava sombras alongadas e manchas alaranjadas no relevo verde da região. Casinhas humildes começavam a apresentar fumaças em suas chaminés, e os animais começavam a fazer barulho logo cedo. Conseguimos ver araras e até tucanos voando por alí. Que vontade de ter uma camera no bolso!
Foram horas e horas de pedal até o pórtico de chegada. Alguém falou que não tinha subidas… hahahahahahaha! De onde será que veio essa informação? Enfrentamos algo como 10h de subidas e descidas, passando por rios e reabastecendo nossas garrafas, sempre na esperança de ser a ultima vez! Comíamos aqueles géis também na esperança de não precisarmos do próximo, porque já não eram tão saborosos assim naquele momento… bananinha também era uma coisa que eu só queria ver no próximo ano! Sandubinha de queijo com salame????? Esses também comi vários nesse trecho, e meu estomago já estava quase expulsando os pãezinhos Sevem Boys de lá. Barra de proteína?? Não… só de olhar pra ela, já desisti!
Chegamos no asfalto e aumentamos a velocidade… quero dizer: ELES aumentaram, porque eu tava além dos limites que eu já conhecia da minha pessoa, e permaneci no meu ritmo… Essas provas são legais por isso: você sempre descobre que pode mais! E antes da metade desse pedal, eu já havia descoberto isso. Aos 30km eu tava quebrado, mas tinha que aguentar até final dos 100km de MTB desse ultimo trecho se eu quisesse a medalha. E, além disso, tivemos que encarar no final uns 4kms de subida para chegarmos ao pórtico… aquilo não acabava mais. Limite físico e psicológico ultrapassados! E foi o que conseguimos fazer, cumprimos nosso objetivo: completamos a prova sem cortes! Pqp, isso foi magnífico! A prova teve nada menos do que 207km, confirmados pelo organizador! O ritmo para conseguir esse feito tinha que ser forte para passarmos nos pontos de corte dentro do horário previsto, já que a prova era bastante longa para o tempo estipulado. Pouco conversamos durante a corrida, os trechos foram todos tensos. O Marcão nem fez piadas e charadas de lógica! Claro que ele queria, mas acho que ficou com medo que eu não tivesse energia para pensar e manter o ritmo ao mesmo tempo. Melhor não falar nada, só socar a bota para não perdermos tempo.
E assim foi a realização da Expedição Terra de Gigantes 2012. Para mim, não foi “só mais uma” corrida de aventura para ficar na história. Das minhas corridas, que não foram poucas até hoje, esta NÃO foi a mais longa… NÃO foi também a mais duradoura… NÃO foi a que me vi no pior perrengue… certamente, NÃO foi a que corri na maior velocidade… NÃO foi a que mais passei frio… e também NÃO foi a que encontrei maior variação de altitude… mas certamente foi a que uniu cada um desses elementos de forma intensa, torando-se O MAIOR DESAFIO em corridas de aventura que enfrentei até hoje. Valeu Equipe Guaranis por mais essa conquista marcante!

André Stefanini

Aos meus companheiros de equipe, só tenho a agradecer pela oportunidade ter realizado junto com vocês esse desafio! Carcaça, obrigado por carregar minha mochila no final, você foi guerreiro (como sempre), porque a bichinha tava pesada pacas, cheia de coisas molhadas. Valeu Marcão, pelo honroso convite para correr com a Guaranis, pela sua força na prova, pela navegação espetacular, pelas dicas e experiência que sempre divide comigo. Rebeca, como eu já disse, você foi uma ótima integrante, que trouxe sua energia vibrante para a nossa equipe, que só ganhou com seu altíssimo astral e a determinação de uma guerreira! E valeu Lilian, pela companhia, pelas risadas, pela ajuda antes e depois da prova, e também pela torcida sempre energizante nos ATs! E como sempre: Caco e professores da Selva, valeu pelos treinos, que certamente foram decisivos. Claro que aos nossos familiares devemos o agradecimento pela compreensão, ao saberem que fazemos isso por paixão, o que não é facilmente explicado.

3 comentários até agora

3 Respostas para “Terra de Gigantes é só para GIGANTES”

  1. Rebeca

    Foi demais mesmo!!!
    Quando houver a oportunidade gostaria de correr mais com essa equipe maravilhosa que me ajudou a superar meus limites!
    Obrigada Lilian por ter me chamado… quando precisar é só chamar!
    Meninos, obrigada por me acolherem e pelo companheirismo!
    Foi uma honra!
    Rebeca.

    01 Set 2012 - 0:06

  2. eyesloveu.com

    Equipe Guaranis de Corrida de Aventura » Terra de Gigantes é só para GIGANTES

    22 Set 2015 - 16:06

  3. Halley

    Equipe Guaranis de Corrida de Aventura » Terra de Gigantes é só para GIGANTES

    01 Nov 2015 - 10:23

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